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Como o poema de Fernando
Pessoa, Xingó forma uma obra de arte que separa águas elevadas de um
pântano morto. No alto, um passeio de catamarã segue script de superprodução
cinematográfica. Passa pelo morro do macaco. Depois, uma série de rochas
que compõem no imaginário o panorama do antigo cânion que repousa submerso.
Por fim, uma parada num ponto para mergulho em meio a águas verdes,
cercadas pelas rochas vermelhas, cobertas pelo céu azul. O horário do
passeio é cronometricamente calculado para o retorno coincidir com o
pôr-do-sol dourado que arrebenta a retina. Esse o espetáculo à montante
da represa.
Por baixo d´água, somente
músicas como Sobradinho fazem lembrar que obras civis da dimensão de
Xingó fazem submergir vidas inteiras. Não vidas carnais. Mas vidas míticas.
Símbolos e mitos da oralidade, Remanso, Casa Nova, Pilão Arcado, Sobradinho,
Sento Sé. Muito dali virou pó submerso. E sobrevive apenas na memória
ou na imaginação sem mais fecundar realidade alguma. Metade de nada.
Face oculta submersa pelas águas que dão luz.
À jusante, o São Francisco
torna-se um rio de correntes fortes, estreito, em busca afoita pelo
caminho do mar. O passeio do catamarã de baixo tem como ponto alto deixar
os visitantes na margem próxima à grota de Angico, no município Poço
Redondo, onde morreu Lampião.
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INTRODUÇÃO
XINGÓ E O
RIO SÃO
FRANCISCO
LAMPIÃO
E O CANGAÇO
CANGAÇO
MODERNO
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"Grota não é gruta", alerta
o guia turístico ao iniciar seu desfile de conhecimento decorado ao
custo de duas expedições por dia e da leitura de algumas das inúmeras
obras que tratam do mito Lampião. Ali se escondia o Rei do Cangaço e
outros 29 cangaceiros e 5 mulheres, no dia 28 de julho de 1938, quando
duas colunas de soldados comandadas pelo tenente João Bezerra da Silva
cercaram o local munidos de fuzis e metralhadoras, e começaram a disparar
uns antes outros depois mas todos na direção do "bandido". Aos primeiros
tiros Lampião tombou morto. Chegara o fim do Rei do Cangaço. Um daqueles
homens que em determinado momento da vida consegue desagradar desde
a todos os homens da volante até o presidente Getúlio Vargas. Os autores
que abordam sua morte se perguntam por que ele morreu ali, em que errou.
A pergunta mais original é saber por que demorou tanto acontecer. Para
chegar até ali, a polícia extraíra de um coiteiro informação preciosa
ao preço de tomar também dele unhas arrancadas à faca, e alguns furinhos
pelo corpo, em requintes de torturas policiais dignas do tempo da ditadura
militar no país. O troféu: 11 cabeças, 2 de mulheres, 9 de homens, incluindo
a do chefe Virgulino Ferreira, o Lampião, levadas em cortejo triunfal.
No início, desfilaram por cidades de Alagoas, até a Capital Maceió.
Mais tarde, os restos de Maria Bonita e Lampião foram para o Instituto
Nina Rodrigues, em Salvador, onde ficaram até 1969.
Ficar no Instituto Nina
Rodrigues tem boa explicação. Não se trata de um lugar qualquer. O Nina
Rodrigues representa um dos pontos altos no Brasil do casamento entre
medicina e direito, ou estudo da criminalidade, e tem por origem o tempo
em que o positivismo estava não só em moda mas também no poder. As cabeças
enviadas para lá eram medidas, pois a partir do estudo de diâmetros
ou formatos dos crânios, acreditava-se poder prever traços que teriam
por resultado a tendência à criminalidade. Além de Lampião e Maria Bonita,
passaram por ali anteriormente as cabeças de Antônio Conselheiro e outros
homens não tão conhecidos, que tinham por traço comum o fato de serem
vistos pelo poder como excrescências genéticas que resultaram em traços
violentos e em criminalidade. O último caso famoso de vísceras ali estudadas
foi o de PC Farias.
A família de Lampião ganhou
o direito de retirar dali os despojos de seus mortos depois de 31 anos.
Só em 1969 os restos ganharam repouso, no cemitério das Quintas, em
Salvador. Os criminosos eram dissecados depois de mortos e tiveram de
deixar como herança a luta da família para garantir seu sossego. Contra
eles, os heróis das volantes. Aqueles que subtraíam aos cangaceiros
o peso dos aiós, alforjes feitos de uma raiz resistente. Desse material
que dizem ser ouro, dinheiro e pedras de valor, pouco se sabe, e quase
ninguém viu. A neta de Lampião, Vera Ferreira, conclui em seu livro
sobre o avô que "todos escondiam como podiam o que roubavam dos cadáveres
dos cangaceiros"2 .
Sobraria espalhado pelo chão da batalha o que nem mesmo a volante quis.
Metal menos nobre. Os corpos pesados de chumbo. Corpos mortos. Mitos
vivos. Hoje, um grupo de arqueólogos tenta localizar os restos mortais
ou indícios daquele pedaço de história desprezado. Não adianta. Ali,
o tempo trouxe a paz aos corpos. E vida aos fatos recuperados pelos
depoimentos dos sobreviventes.
Sabe-se, por exemplo, que
Maria Bonita não morreu na batalha. Foi ferida por um tiro nas costas.
Mas em vez de presa, foi degolada pouco depois. Ato de bravura comum
para a época, se pensarmos que 40 anos antes, as mulheres, em Canudos,
adentravam com filhos no colo em casas ardendo em chamas da guerra e
da destruição, conforme depoimento de Euclides da Cunha. Mais mitos.
Sabe-se que os cangaceiros eram protegidos por coiteiros, que recebiam
dinheiro para escondê-los em sítios afastados das cidades e vilas, e
para levar-lhes comida, armas e munição, como aquele Pedro Cândido que
delatou o cangaceiro depois de ter unhas e entranhas arrancadas. Sabe-se
que as volantes eram grupos de soldados tão ou mais temíveis que os
cangaceiros, que roubavam em nome das perseguições que faziam, e que
lutavam como bichos no solo seco da caatinga atrás dos fora-da-lei.
Sabe-se que grota é uma formação rochosa semelhante a uma gruta, só
que mais aberta, um vale profundo. E em lugares como aquele ali, os
cangaceiros tinham seu repouso de guerreiro. Banhavam-se à exaustão
com perfume, para promover seus bailes perfumados animados ao som de
um tocador da região. O perfume daquele dia perdeu lugar para o cheiro
de carne putrefata que por muito tempo ali cheirou.
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Mas muito não se sabe. Ou
poucos dizem saber. O guia da Grota do Angico arrisca-se em reproduzir
a tese de que a ordem de matar Lampião partiu pessoalmente de Getúlio
Vargas, já que, em 1939, os interventores de Sergipe e Alagoas protegiam
o bandido em troca de favores. Um candidato a prefeito de Piranhas,
a cidade emparelhada a Canindé do lado alagoano do rio, diz que Lampião
era amigo dos poderosos, gente que contava com ele para assassinar inimigos
políticos e lhe dava guarida. Aliás, muito não se sabe também no presente.
Na madrugada de 14 de março
de 2000, o radialista José Wellington Fernandes, conhecido como Zezinho
Cazuza, recebeu um tiro de escopeta e caiu morto na cidade Canindé do
São Francisco, vizinha a Poço Redondo, ao que tudo indica, por motivo
político, já que seria candidato a vereador e vinha denunciando irregularidades
do prefeito Genivaldo Galindo, do PSDB.
O governador de Sergipe,
Albano Franco, deu carta branca para a cúpula da polícia apurar o caso.
O que bem podia indicar duas coisas tão distintas como ou a apuração
rigorosa ou a escritura no papel em branco de uma receita de pizza de
Pitu, camarão típico da região. A suspeita cresceu no dia 29 de março,
quando foi afastado da investigação o delegado Jocélio Franca Fróes.
O mesmo que, no dia seguinte ao crime, em 15 de março, prendeu o assassino
confesso, o ex-tratorista José de Adolfo. Em entrevista à TV, dia 7
de abril, o matador de aluguel deu a ficha técnica do crime. Mandante:
o prefeito Galindo. O preço da vida: R$ 3 mil. O Jornal da Cidade, pertencente
à família do governador, classifica o assassino como "catingueiro ardiloso...
(que) construiu uma verdadeira teia de aranha, na qual tentou envolver
o prefeito de Canindé, Genivaldo Galindo (PSDB), e o sobrinho do deputado
estadual Ulices Andrade (PSDB), líder do governo na Assembléia." Diz
o jornal que "enquanto pode, Jocélio esquivou-se das artimanhas do matador,
mas antes de chegar a uma conclusão foi, abruptamente, substituído pelo
delegado Sérgio Ricardo. Em apenas uma semana, este concluiu o inquérito
e, mesmo não tendo ouvido o sobrinho do deputado, além de várias outras
pessoas citadas por Zé de Adolfo, arvorou-se no direito de pedir a prisão
preventiva de Galindo"3 .
José de Adolfo continua preso,
e agora à espera da companhia de Galindo que teve o pedido de prisão
solicitado à Justiça pelo delegado Sérgio Ricardo, mas que foi indeferida
por falta de provas. Quando à autoria, não há dúvidas. José de Adolfo
confessa o crime até mesmo para a televisão que entra em casa na hora
do almoço. Na casa de José de Adolfo foi apreendida a escopeta que deve
ter disparado o tiro fatal. Reconstituiu-se o crime. Sabe-se que um
menor que participou da ação continua foragido. E que o ex-tratorista
fazia parte da folha de pagamento do prefeito do município.
O olho grande em torno da
disputa do município tem boa razão. Aquelas mesmas comportas que escoam
um mundão de água da represa para gerar energia são a mina de onde sai
receita sem igual no Estado. O município sergipano que se beneficia
por ter acolhido em sua delimitação a usina hidrelétrica de Xingó, o
mesmo Canindé do São Franciso, simboliza um dos casos de grandes arrecadações
municipais no país, algo em torno de R$ 2,2 milhões por mês, dinheiro
suficiente para dar fim a 733 vidas a R$ 3 mil cada.
O Interior de Sergipe viu
morrer José Wellington e viu morrer Lampião e Conselheiro. Teme-se que
cortem também o pescoço de José de Adolfo, se é que haja alguém que
tema o que quer que seja que ele possa falar. Quando lhe perguntam se
tem medo, diz simplesmente que está nas mãos dos homens. Nem acredita
em Deus. Muitos de nós também não acreditam mais. E isso não é problema.
Só não se pode deixar é morrer a esperança. Aquela de que, ao contrário
do tempo do cangaço, e de Canudos, apure-se com rigor o assassinato
e que alguém pague em vida, e junto com os mentores do ato, pela barbaridade
que fez.
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