29 de maio de 2000

Cangaço para todos os gostos: à antiga e à moderna

O mito é o nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo
O corpo morto de Deus
Vivo e desnudo

Este que aqui aportou
Foi por não ser existindo
Sem existir nos bastou
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade
E a fecundá-la decorre
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre 1

INTRODUÇÃO

XINGÓ E O
RIO SÃO
FRANCISCO

LAMPIÃO E O CANGAÇO

CANGAÇO MODERNO

Como o poema de Fernando Pessoa, Xingó forma uma obra de arte que separa águas elevadas de um pântano morto. No alto, um passeio de catamarã segue script de superprodução cinematográfica. Passa pelo morro do macaco. Depois, uma série de rochas que compõem no imaginário o panorama do antigo cânion que repousa submerso. Por fim, uma parada num ponto para mergulho em meio a águas verdes, cercadas pelas rochas vermelhas, cobertas pelo céu azul. O horário do passeio é cronometricamente calculado para o retorno coincidir com o pôr-do-sol dourado que arrebenta a retina. Esse o espetáculo à montante da represa.

Por baixo d´água, somente músicas como Sobradinho fazem lembrar que obras civis da dimensão de Xingó fazem submergir vidas inteiras. Não vidas carnais. Mas vidas míticas. Símbolos e mitos da oralidade, Remanso, Casa Nova, Pilão Arcado, Sobradinho, Sento Sé. Muito dali virou pó submerso. E sobrevive apenas na memória ou na imaginação sem mais fecundar realidade alguma. Metade de nada. Face oculta submersa pelas águas que dão luz.

À jusante, o São Francisco torna-se um rio de correntes fortes, estreito, em busca afoita pelo caminho do mar. O passeio do catamarã de baixo tem como ponto alto deixar os visitantes na margem próxima à grota de Angico, no município Poço Redondo, onde morreu Lampião.

 

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XINGÓ E O
RIO SÃO
FRANCISCO

LAMPIÃO E O CANGAÇO

CANGAÇO MODERNO

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"Grota não é gruta", alerta o guia turístico ao iniciar seu desfile de conhecimento decorado ao custo de duas expedições por dia e da leitura de algumas das inúmeras obras que tratam do mito Lampião. Ali se escondia o Rei do Cangaço e outros 29 cangaceiros e 5 mulheres, no dia 28 de julho de 1938, quando duas colunas de soldados comandadas pelo tenente João Bezerra da Silva cercaram o local munidos de fuzis e metralhadoras, e começaram a disparar uns antes outros depois mas todos na direção do "bandido". Aos primeiros tiros Lampião tombou morto. Chegara o fim do Rei do Cangaço. Um daqueles homens que em determinado momento da vida consegue desagradar desde a todos os homens da volante até o presidente Getúlio Vargas. Os autores que abordam sua morte se perguntam por que ele morreu ali, em que errou. A pergunta mais original é saber por que demorou tanto acontecer. Para chegar até ali, a polícia extraíra de um coiteiro informação preciosa ao preço de tomar também dele unhas arrancadas à faca, e alguns furinhos pelo corpo, em requintes de torturas policiais dignas do tempo da ditadura militar no país. O troféu: 11 cabeças, 2 de mulheres, 9 de homens, incluindo a do chefe Virgulino Ferreira, o Lampião, levadas em cortejo triunfal. No início, desfilaram por cidades de Alagoas, até a Capital Maceió. Mais tarde, os restos de Maria Bonita e Lampião foram para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, onde ficaram até 1969.

Ficar no Instituto Nina Rodrigues tem boa explicação. Não se trata de um lugar qualquer. O Nina Rodrigues representa um dos pontos altos no Brasil do casamento entre medicina e direito, ou estudo da criminalidade, e tem por origem o tempo em que o positivismo estava não só em moda mas também no poder. As cabeças enviadas para lá eram medidas, pois a partir do estudo de diâmetros ou formatos dos crânios, acreditava-se poder prever traços que teriam por resultado a tendência à criminalidade. Além de Lampião e Maria Bonita, passaram por ali anteriormente as cabeças de Antônio Conselheiro e outros homens não tão conhecidos, que tinham por traço comum o fato de serem vistos pelo poder como excrescências genéticas que resultaram em traços violentos e em criminalidade. O último caso famoso de vísceras ali estudadas foi o de PC Farias.

A família de Lampião ganhou o direito de retirar dali os despojos de seus mortos depois de 31 anos. Só em 1969 os restos ganharam repouso, no cemitério das Quintas, em Salvador. Os criminosos eram dissecados depois de mortos e tiveram de deixar como herança a luta da família para garantir seu sossego. Contra eles, os heróis das volantes. Aqueles que subtraíam aos cangaceiros o peso dos aiós, alforjes feitos de uma raiz resistente. Desse material que dizem ser ouro, dinheiro e pedras de valor, pouco se sabe, e quase ninguém viu. A neta de Lampião, Vera Ferreira, conclui em seu livro sobre o avô que "todos escondiam como podiam o que roubavam dos cadáveres dos cangaceiros"2. Sobraria espalhado pelo chão da batalha o que nem mesmo a volante quis. Metal menos nobre. Os corpos pesados de chumbo. Corpos mortos. Mitos vivos. Hoje, um grupo de arqueólogos tenta localizar os restos mortais ou indícios daquele pedaço de história desprezado. Não adianta. Ali, o tempo trouxe a paz aos corpos. E vida aos fatos recuperados pelos depoimentos dos sobreviventes.

Sabe-se, por exemplo, que Maria Bonita não morreu na batalha. Foi ferida por um tiro nas costas. Mas em vez de presa, foi degolada pouco depois. Ato de bravura comum para a época, se pensarmos que 40 anos antes, as mulheres, em Canudos, adentravam com filhos no colo em casas ardendo em chamas da guerra e da destruição, conforme depoimento de Euclides da Cunha. Mais mitos. Sabe-se que os cangaceiros eram protegidos por coiteiros, que recebiam dinheiro para escondê-los em sítios afastados das cidades e vilas, e para levar-lhes comida, armas e munição, como aquele Pedro Cândido que delatou o cangaceiro depois de ter unhas e entranhas arrancadas. Sabe-se que as volantes eram grupos de soldados tão ou mais temíveis que os cangaceiros, que roubavam em nome das perseguições que faziam, e que lutavam como bichos no solo seco da caatinga atrás dos fora-da-lei. Sabe-se que grota é uma formação rochosa semelhante a uma gruta, só que mais aberta, um vale profundo. E em lugares como aquele ali, os cangaceiros tinham seu repouso de guerreiro. Banhavam-se à exaustão com perfume, para promover seus bailes perfumados animados ao som de um tocador da região. O perfume daquele dia perdeu lugar para o cheiro de carne putrefata que por muito tempo ali cheirou.

 

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RIO SÃO
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Mas muito não se sabe. Ou poucos dizem saber. O guia da Grota do Angico arrisca-se em reproduzir a tese de que a ordem de matar Lampião partiu pessoalmente de Getúlio Vargas, já que, em 1939, os interventores de Sergipe e Alagoas protegiam o bandido em troca de favores. Um candidato a prefeito de Piranhas, a cidade emparelhada a Canindé do lado alagoano do rio, diz que Lampião era amigo dos poderosos, gente que contava com ele para assassinar inimigos políticos e lhe dava guarida. Aliás, muito não se sabe também no presente.

Na madrugada de 14 de março de 2000, o radialista José Wellington Fernandes, conhecido como Zezinho Cazuza, recebeu um tiro de escopeta e caiu morto na cidade Canindé do São Francisco, vizinha a Poço Redondo, ao que tudo indica, por motivo político, já que seria candidato a vereador e vinha denunciando irregularidades do prefeito Genivaldo Galindo, do PSDB.

O governador de Sergipe, Albano Franco, deu carta branca para a cúpula da polícia apurar o caso. O que bem podia indicar duas coisas tão distintas como ou a apuração rigorosa ou a escritura no papel em branco de uma receita de pizza de Pitu, camarão típico da região. A suspeita cresceu no dia 29 de março, quando foi afastado da investigação o delegado Jocélio Franca Fróes. O mesmo que, no dia seguinte ao crime, em 15 de março, prendeu o assassino confesso, o ex-tratorista José de Adolfo. Em entrevista à TV, dia 7 de abril, o matador de aluguel deu a ficha técnica do crime. Mandante: o prefeito Galindo. O preço da vida: R$ 3 mil. O Jornal da Cidade, pertencente à família do governador, classifica o assassino como "catingueiro ardiloso... (que) construiu uma verdadeira teia de aranha, na qual tentou envolver o prefeito de Canindé, Genivaldo Galindo (PSDB), e o sobrinho do deputado estadual Ulices Andrade (PSDB), líder do governo na Assembléia." Diz o jornal que "enquanto pode, Jocélio esquivou-se das artimanhas do matador, mas antes de chegar a uma conclusão foi, abruptamente, substituído pelo delegado Sérgio Ricardo. Em apenas uma semana, este concluiu o inquérito e, mesmo não tendo ouvido o sobrinho do deputado, além de várias outras pessoas citadas por Zé de Adolfo, arvorou-se no direito de pedir a prisão preventiva de Galindo"3.

José de Adolfo continua preso, e agora à espera da companhia de Galindo que teve o pedido de prisão solicitado à Justiça pelo delegado Sérgio Ricardo, mas que foi indeferida por falta de provas. Quando à autoria, não há dúvidas. José de Adolfo confessa o crime até mesmo para a televisão que entra em casa na hora do almoço. Na casa de José de Adolfo foi apreendida a escopeta que deve ter disparado o tiro fatal. Reconstituiu-se o crime. Sabe-se que um menor que participou da ação continua foragido. E que o ex-tratorista fazia parte da folha de pagamento do prefeito do município.

O olho grande em torno da disputa do município tem boa razão. Aquelas mesmas comportas que escoam um mundão de água da represa para gerar energia são a mina de onde sai receita sem igual no Estado. O município sergipano que se beneficia por ter acolhido em sua delimitação a usina hidrelétrica de Xingó, o mesmo Canindé do São Franciso, simboliza um dos casos de grandes arrecadações municipais no país, algo em torno de R$ 2,2 milhões por mês, dinheiro suficiente para dar fim a 733 vidas a R$ 3 mil cada.

O Interior de Sergipe viu morrer José Wellington e viu morrer Lampião e Conselheiro. Teme-se que cortem também o pescoço de José de Adolfo, se é que haja alguém que tema o que quer que seja que ele possa falar. Quando lhe perguntam se tem medo, diz simplesmente que está nas mãos dos homens. Nem acredita em Deus. Muitos de nós também não acreditam mais. E isso não é problema. Só não se pode deixar é morrer a esperança. Aquela de que, ao contrário do tempo do cangaço, e de Canudos, apure-se com rigor o assassinato e que alguém pague em vida, e junto com os mentores do ato, pela barbaridade que fez.

 

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RIO SÃO
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Marco Bonetti (mbonetti@tci.art.br)
é Jornalista e coordenador do
curso de Jornalismo da
Universidade Tiradentes,
Aracaju-SE

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