Décimo Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Contudo ainda demoraram uns dias para a viagem. Seu Zezé teve que fazer em exercício de logística para que conseguíssemos chegar a Campinas. Nesses tempos, e com a chuva que não parava, viajar era uma aventura. Fui pesaroso, porque a Shannya mandou recado dizendo que não precisava mais ir me encontrar com ela. Não consegui responder.

Viajamos de ônibus, saindo de São José. E gastamos dois dias para chegar a nosso destino, em uma viagem de pouco mais de seiscentos quilômetros. As estradas estavam muito ruins, bem pior do que quando viajei de caminhão. Furou o pneu duas vezes; o ônibus atolou; quebrou já meio perto de Campinas e demorou um bom tempo para se conseguir consertar. Se seu Zezé não fosse previdente e não tivesse levado um lanche, teríamos passado muita fome. Não que eu não tivesse sentido fome, já que não tive coragem de pedir mais comida do que a que ele me oferecia... Por fim, conseguimos chegar.

Seu Nico não estava nos aguardando, nem haveria como, pois não tinha como saber quando o ônibus chegaria e, enfim, ele estava doente. Não foi fácil encontrar sua casa. Andamos o resto da noite e o dia inteiro, debaixo da chuva, com muito frio e fome; o lanche já tinha acabado. Mas conseguimos encontrar a casa e foi mesmo emocionante a recepção que tivemos ao chegar. Seu Nico chegou a chorar. Sua esposa, dona Carol, mostrou-se muito feliz com nossa chegada e não sabia mais o que fazer para nos agradar e nos dar algum conforto, inclusive nos servindo um prato quente de arroz, feijão, batata e até uma carninha. E seu Zezé ficou bem feliz ao constatar que seu irmão não estava tão ruim quanto imaginara.

Depois fomos dormir. O casal, em seu bunker; e nós em colchonetes na sala, até que confortáveis e com umas cobertas que aqueciam muito bem. Estávamos mesmo muito cansados e, claro, o velhinho deveria estar ainda mais cansado do que eu. Fiquei contente por ter vindo, pois sozinho a viagem teria sido bem pior para o professor.

Antes de pegar no sono ainda fiquei pensando um pouco, sobre a viagem e sobre a cidade que eu estava conhecendo.

Estranhei bastante o jeito da cidade grande. Até então a maior cidade que eu conhecera era Paranaguá. Achei-a feia, prédios muito altos, um do lado do outro, meio claustrofóbico, meio assustador, cidade meio vazia, casas abandonadas e depredadas, pouca gente nas ruas, quase nenhum carro nem aeromóvel. Encontrávamos apenas veículos abandonados e depenados em toda parte. Nem mesmo observamos qualquer violência, como esperávamos, aliás, com bastante receio. Encontramos poucos transeuntes, sempre cabisbaixos, andando como se procurassem alguma coisa, um jeito muito triste. Talvez fosse a chuva que não dava trégua, ou o frio, que judiava bem. O lixo espalhado pelas ruas era igual ao da minha cidade, só que em volume muito maior, o que seria lógico de se esperar. Mas, em algumas ruas, ele fazia montanhas respeitáveis, com um cheiro às vezes insuportável, enquanto o chorume escorria por todos os lados.

Acordei tarde. Mesmo tendo dormido na sala, não percebi que todos já estavam em pé; já tinham até tomado café. Acho que foi o cheiro ruim do cigarro de seu Nico que me acordou. Mesmo doente ele continuava fumando. Fiquei meio sem jeito, disse um bom dia rápido e fui para o banheiro. Quando voltei, já um pouco mais arrumado, dona Carol me ofereceu café com bolinho, o que foi muito bem vindo, já que acordei com fome. Parece que a viagem aumentava a fome da gente. Estavam todos calados, o que estranhei, então perguntei à dona Carol se ela ainda estava fazendo doces para vender.

- Não meu filho; com a doença do Nico parei por uns tempos. Mas vou encontrar alguém para vendê-los, se bem que quase ninguém mais compra; parece que o dinheiro acabou; tá todo mundo duro.

- Bem – disse seu Nico, tossindo. Agora já estou podendo sair para vender, mas ela que não quer que eu vá.

- Com essa chuva e esse frio, meu Deus homem! Só se eu fosse doida...

E todos nós rimos.

- Meu irmão não tem câncer como eu pensava – disse seu Zezé.

- O Zezé é exagerado, já quer apressar minha morte. Mas pode adiar, viu Zezé. Aqui ainda tem muito tutano! – Bateu no peito com força, seguindo um acesso de tosse.

- Também, não para de fumar! – admoestou dona Carol.

- O que o senhor tem? – perguntei

- É doença obstrutiva nos pulmões – respondeu seu Zezé. Doença causada por essa porcaria de cigarro – completou.

- Pois é, mas nem penso em parar de fumar, viu seus bruxos! Afinal eu tenho que morrer um dia, mas quero morrer feliz, fumando e tomando minha cachacinha. A vida não me foi muito tranquila, judiou muito de mim, embora não tanto quanto de você, né Zezé? Então o melhor é ir vivendo e fumando, pelo menos me dá alguma satisfação.

Enquanto conversávamos, dona Carol dava um jeito na sala, que na verdade era junto à cozinha onde estávamos sentados em volta da mesa pequena. Estava bem frio, parecendo até mais que no dia anterior, e a chuvinha continuava.

- Já podemos tomar um gole? – perguntou seu Zezé.

- Ah, tenho uma coisa especial para vocês – disse seu Nico, levantando-se para apanhar os copos e uma garrafa já aberta, da qual nos serviu um bom gole.

Tomei o primeiro trago meio depressa demais e engasguei o que causou riso de todos. Não sabia o que era, nunca tinha experimentado aquela bebida forte.

- É conhaque – disse-me seu Nico, adivinhando a minha pergunta – e importado, viu Zezé!

- Muito bom – disse o velho mestre. Tá debochando de mim porque só lhe servi cachaça, né? Mas fico muito grato, há muito tempo não tomava uma coisa tão boa. Onde conseguiu?

- Tenho minhas manhas, sempre dou algum jeito.

- E o tratamento Nico? Como é que estão as coisas?

- Bom, fui atrás de um velho conhecido, o Oliveira, amigo meu dos tempos bons, que é médico e professor na única faculdade de Medicina que sobrou na cidade. Ele tem me ajudado muito, conseguiu os exames, me internou por alguns dias e até me arruma os remédios, tudo gratuito. Até agora não gastei nada. Espero que ele continue lá na faculdade pelo menos até eu partir dessa pra melhor. Hahaha!

O tal de conhaque era mesmo muito bom, mas tinha-se que bebericá-lo devagar, saboreando, degustando lentamente. Seu Nico já acendera outro cigarro enquanto bebia lentamente, e dona Carol trouxe uns pedaços de uma massa crocante, parece que frita, prá gente ir beliscando. Eu nunca tivera essas mordomias; para mim, era como se estivesse no céu; parecia até que tinha ficado rico.

- E como vão as coisas por aqui, Nico?

- Como sempre, nada parece que muda. De uns dias prá cá, com esse tempo, parece que a cidade está parada. Como tenho saído pouco, não tenho notícias do que está acontecendo no país. Na TV, você sabe que não dá para acreditar, nem no rádio. Está é faltando gás, faltando luz, faltando água, faltando comida, faltando dinheiro... Está todo mundo apertado. Eu tenho um amigo que me vende alguma coisa escondido, sabe como é, mercado negro. Mas não consigo tudo que peço, é mais na base do que é que você tem hoje. Ouvi dizer, não sei se é verdade, que das três empresas que arrendaram o exército, duas estão indo embora, estão desistindo. Não sei o porquê disso, mas parece que é sério. Você ouviu alguma coisa?

- Não, não ouvi nada. Mas lá no mato as notícias demoram a chegar.

- Seu Nico, se as empresas não mantiverem mais o exército, os soldados ficarão desempregados? – perguntei, metendo minha colher de pau na conversa.

- Sei não filho... Pode ser que venham outras, ou pode ser que o governo resolva assumir as forças armadas, ou ainda deixar que se dispersem, já que não têm nada para fazer mesmo. Mas nem são tantos assim e se ficarem desempregados não vai mudar muita coisa, não. A polícia, que deveria cuidar de manter a lei, não faz nada, que dirá o exército... Dizem também que o governo está preparando eleições, mas nisso não acredito.

- É difícil de acreditar. O povo nem sabe mais como é que se vota – disse seu Zezé.

- Mas votar pra que, Zezé? Você sabe melhor do que eu que, depois do golpe, as eleições são apenas para inglês ver, apenas teatro. Candidatos escolhidos, partidos fictícios, sem oposição, sem liberdade de manifestações, sem que se possa votar contra o governo. Então, pra quê? Lembra quando fui candidato? Gastei dinheiro à toa. Era a primeira eleição depois do golpe, mas parecia que as pessoas estavam anestesiadas, ou em choque, não acreditavam quando dizíamos que o novo governo as estava espoliando, retirando seus mínimos direitos, que as coisas iam piorar muito, que os dirigentes e políticos no poder eram verdadeiros ladrões. Fiquei até chateado com os poucos votos que recebi. Eles me renderam foi cadeia, perseguição, cassação, amolação de tudo que era jeito, morte de meu único filho, perseguido que nem o pai e, por fim, pobreza, miséria...

Ele encheu o copo de conhaque, quase acabando com a garrafa e acendeu mais um cigarro, os olhos cheios de água, a cabeça baixa, balançando de um lado para o outro. Também senti uma angústia no peito.

Dona Carol já estava preparando o almoço, e o cheirinho era bem bom. Disse, olhando paro marido:

- Esse Nico é mesmo muito bobo...

- Ei Nico, hoje eu queria descansar, a viagem foi mais cansativa do que esperava, mas amanhã poderíamos sair e andar um pouco pela cidade, se você não tiver compromisso. Faz tempo que não venho aqui.

- Que compromisso que nada! Vamos passear sim, mostrar ao jovem como é a cidade grande.

Acabamos com a garrafa antes do almoço. A comida estava mesmo muito boa. Depois do almoço, seu Zezé foi dormir na sala e seu Nico e eu fomos ajudar a arrumar a cozinha. Depois fomos nos sentar do lado de fora da casa, num cobertinho que nos protegia da chuva. Dona Carol saiu para resolver alguma coisa. Ficamos ali, olhando a chuvinha, que agora era uma garoa fina, enquanto seu Nico acendia mais um cigarro.

- O que você achou da cidade?

- Bem, eu não vi muita coisa, mas fiquei meio tonteado no meio de tantos edifícios tão altos. Achei meio vazia, meio largada, sei lá, bastante suja e com pouca gente e carros pela rua. Pensei que iria encontrar uma cidade vibrante, com muita gente pra lá e pra cá, trânsito, aeromóveis, agitação pra todo lado. Pra dizer a verdade seu Zezé e eu estávamos apreensivos, com medo de sermos atacados, roubados, mas nem violência de qualquer tipo, nós vimos.

- É mesmo, anda meio vazia. Talvez seja o clima, mas eu penso que é por causa da crise. Não adianta assaltar ninguém, ninguém tem nada de valor, não há dinheiro. O comércio anda parado, até as farmácias e os vendedores de drogas nas ruas estão tendo prejuízo, pois não conseguem vender nada. Você quer saber, quando derrubaram a presidenta e fizeram as reformas que nos levaram para o abismo, justificaram dizendo que era para acabar com a crise econômica, para aumentar os empregos, melhorar a renda e a vida das pessoas. A crise não era só aqui, começou lá fora, não era culpa nossa, mas serviu de justificativa e o povo acreditou. Vi muito professor, médico, advogado, economista e outros com títulos de curso superior, doutores, mestres, gente que se dizia muito inteligente acreditando e apoiando o novo governo e suas reformas. Mas, escuta, qualquer um poderia ver que elas não deram certo em outros países, só serviram para piorar a situação deles, assim como veio a acontecer conosco. Não havia lógica, nem na economia, para se fazer o que eles fizeram. Depois a crise mundial piorou, quebrando muitas empresas, bancos, até conglomerados imensos e alguns países. Quase quebrou os Estadosunidos, que por algum milagre ainda tem poder e é quem nos governa, quebrou alguns países europeus o que ocasionou o fim da Comunidade Europeia – até a moeda da Europa, que acho que você nunca ouviu falar, o tal do Euro, desapareceu. E assim foi com o Japão, Rússia, França, Alemanha, Índia e muitos outros, quase todos os países do mundo. Até a China, que hoje domina o mundo, sofreu. Muito bem, mudaram tudo, tiraram nossos direitos, nossos empregos, tiraram a previdência, para não quebrar o país, acabaram com a democracia, com o Estado de Direito, fizeram um verdadeiro terror. E daí? Adiantou alguma coisa? A crise acabou? Houve alguma melhora na vida do povo? Conversa! A crise, pelo menos para nós, não acabou nunca, só se agravou. Ano a ano as coisas só pioraram. E agora estão dizendo que nossa situação atual é por causa da crise. Que crise? Inventaram outra crise? Balela, balela, como sempre. Essa merda de crise nunca acabou, pelo menos pra nós.

- Bom, desde que eu me lembro por gente, falam em crise. Vira e mexe o governo vem com a tal de crise, tudo é culpa da crise. Mas eu pensava que a cada vez fosse uma crise nova.

- É o que eles querem que todo mundo pense que surgiu uma nova crise, e depois outra, e outra... Assim eles se justificam e fazem o povo aceitar a situação como carneirinhos, como boi de matadouro, sem revoltas nem questionamentos. Desculpe-me, você ainda é muito jovem, mas quem aceita essa explicação, aliás, quem aceita o que o governo fala, é muito burro. Ou otário. Ou melhor, burro e otário ao mesmo tempo.

- Eu também penso que o povo é meio burro.

- Meio é bondade sua, o povo é muito burro. Claro que existem muitos que não aceitam as coisas como os donos do capital querem. Tem muita gente que ainda luta. Agora mesmo tem corrido um boato de que existe um grupo, até grande, tentando derrubar este governo, mas são apenas boatos. Não acredito muito. O governo tem muito poder em suas mãos.

Aí seu Nico teve um acesso de tosse bem prolongado, que não parava. Tentei ajudar, mas nem sabia o que fazer. Aos poucos acalmou e eu lhe disse que deveríamos entrar, estava muito frio.

Ele aceitou e entrou, enquanto eu fiquei mais um pouco, enviando zaps para minha namorada e meu cunhado. Quando entrei seu Nico estava sentado à mesa, já fumando novamente.

Dona Carol voltou, trazendo algumas coisas em duas sacolas, ovos, farinha e sei lá que mais e, quando ela entrou, seu Zezé acordou e logo veio se juntar a nós.

- Dormiu bem, Zezé? – perguntou dona Carol.

- Puxa, foi bem reconfortante. Aquele conhaque é forte, heim, Nico?

- Nem tanto, mas muito bom. Seu pupilo aqui não gostou muito da cidade!

- Não! Gostei, sim – respondi. É que não a conheci direito.

- Essa cidade já foi muito bonita – comentou seu Zezé. Eu gostava muito de vir passear aqui. Quando você se formou, Nico, pensei que voltaria para a nossa cidade, fiquei triste quando você resolveu ficar por aqui. Mas penso que foi melhor para você; encontrou a Carol...

- Ora Zezé! – disse dona Carol.

- Verdade, Carol, você é uma grande companheira, sempre ao lado do meu irmão, ajudando-o, sendo seu esteio. Aqui, Nico, você fez uma carreira brilhante, foi reconhecido por todos, fez muitos bons amigos, tornou-se um nome internacional. E com méritos, tanto que foi nomeado professor emérito na faculdade. Você sempre foi orgulho de todos na família...

- Não é bem assim Zezé, você fala isso só devido à sua imensa bondade. É certo que lutei muito, estudei bastante, trabalhei mais ainda, mas tudo dentro de um padrão normal para aqueles tempos. No fim valeu pouco; veja o que tenho: nada. Mas não reclamo; tenho a Carol, consegui sobreviver, mesmo com todas as perdas, nunca me entreguei à cobiça, à ganância, nunca me vendi a troco de banana. Posso dizer que, contudo, sou feliz.

Enquanto falava, seu Nico virou-se, tomou a mão de dona Carol e ficou acariciando-a. Foi um gesto muito amoroso e nos sensibilizou. Logo dona Carol se refez, retirou a mão e iniciou o preparo do jantar. Não havia energia, então acendemos uns lampiões e abrimos uma garrafa de cachaça, para continuar o papo com ainda maior animação.

- É interessante pensar em felicidade – disse seu Zezé. Nós pensamos que antigamente éramos felizes, costumamos dizer que os tempos antigos eram melhores, que a vida era bem melhor antes do golpe, antes das reformas. Nas nossas imaginações, as pessoas eram muito mais felizes naqueles tempos. Contudo muita gente se sente feliz hoje. Alguns, como o Nico, devido à sua alta capacidade de compreensão e de perdão, além de ter uma consciência rara das coisas. Outros porque não são capazes de conscientizar-se de nada, por que são completos alienados. Outros ainda pelo simples fato de não terem conhecido outra situação, nem em sua própria vivência, nem através de estudo ou informações adequadas. A vida é uma coisa maravilhosa; em quaisquer circunstâncias as pessoas teimam em viver, ou em sobreviver e, interessante, para sobreviver elas precisam ser felizes. E a felicidade pode vir de qualquer coisa, de coisas às vezes sem nenhum valor ou desprezadas por outros. Por exemplo, em nossos dias, às vezes, para certas pessoas, comer um bife ou um pedaço de bolo pode ser o início de uma sensação de plena felicidade. Conseguir uma boa cachaça pode levar qualquer um a pensar que a vida é mesmo boa e que, nesse momento, ele está feliz.

- O Zezé sempre foi filósofo...

- Mas isso não é filosofia! Estou apenas divagando. Tenho pensado que esse inverno sem fim tem pelo menos uma vantagem: faz-nos pensar. Quando tínhamos sol e dias claros e quentes, parece-me que não pensávamos e nem conversávamos tanto. Aproveitávamos para cuidar de jardins, para brincar nas piscinas, para viajarmos às praias, para promover churrascos, festas, bailes – naqueles tempos tínhamos luz. Agora, veja Nico, a vida ficou mais restrita, limitada ao que podemos realizar, e não temos muito o que fazer. Nossa vida ficou doméstica, trancada, sectária, solitária! Já era assim quando se iniciaram as redes sociais; mesmo a internet, acessada por computador, não provocou tantas mudanças como as redes sociais. Com os faces, wats, twiteres etc., as pessoas realmente se isolaram, passaram a ter uma convivência social à distância, sem o contacto pessoal. Foi o início da mudança e, claro, foi uma ferramenta para o domínio completo da oligarquia econômica sobre os meros mortais. Hoje, o inverno incessante, a violência dominante, a ausência de possibilidades de reuniões sociais, as restrições impostas por um governo tirano e corrupto fazem com que as pessoas fiquem presas em casa, sem possibilidade de acessar qualquer meio de entretenimento, sem poder se comunicar com os que estão distantes, sem qualquer chance de distrair suas mentes e, então, se dispõem a pensar. Por outro lado, sem acesso à cultura, sem informações adequadas, sem contato humano, tendo pouco o que ler e o que fazer, elas se tornam ensimesmadas, sorumbáticas, xenofóbicas, avessas às trocas de ideias, às conversas. Em vez de seres sociais e sociáveis, passam a ser absolutamente individuais, egoístas, egocêntricos. Sei não! Fico pensando que antes aqui que era legal, mas ainda conseguimos tirar proveito dessa situação atual, nem que seja só para pensar um pouco mais.

Confesso que ficava embasbacado ouvindo meu mestre e seu irmão. Não sei se era filosofia ou o que seria, mas seus pensamentos me tocavam, faziam-me refletir e eu gostava de aprender e de pensar. Achava que aqueles dois tinham todo o conhecimento do mundo.

- Você está bem certo, Zezé. Muitos pensadores tentaram entender o comportamento das pessoas, quer individualmente, quer socialmente. Mas penso que não é muito fácil entender essas coisas. Quando eu advogava, atendi muita gente com casos inacreditáveis. Pessoas que tinham tudo para serem felizes não o eram; e outras que tinham uma vida de sofrimento e dor mostravam-se absolutamente felizes. Às vezes, pensava que as que se mostravam felizes eram alienadas, não tinham compreensão das coisas, do mundo que as rodeava. Depois percebi que eu estava errado. O ser humano não é tão simples assim. Hoje, acredito que as pessoas querem apenas sobreviver e, aprendi agora com você, que, para sobreviver, elas precisam ser felizes. Mas observo também que felicidade é um conceito muito amplo, muito variável, uma abstração sem qualquer lógica, sem qualquer nexo. Ninguém precisa de nada para ser feliz.

- Isso, Nico, você lembrou bem que felicidade é um conceito muito vasto, uma abstração que varia muito de povo para povo, de cultura para cultura. Você se lembra que quando éramos jovens tínhamos uma noção muito diferente do que seria a felicidade, mas entre nossos amigos havia também alguns que não comungavam nosso pensamento, que tinham outro conceito de felicidade. Antes que as pessoas trocassem o Deus criador, o Deus misericordioso e amoroso, que as culturas modernas criaram, pelo “todo poderoso deus mercado”, aquilo que se chamava felicidade era muito diferente. O que aconteceu é que os próprios donos do ‘mercado’ conseguiram transformá-lo no deus a quem devemos adorar e seguir as determinações. O consumismo foi uma religião que auxiliou muito para que os donos do capital tomassem de fato todo o poder e se tornassem praticamente proprietários de tudo, das pessoas, de todos os seres vivos, dos recursos minerais, enfim de todo o planeta. Nisso, muitos confundiram consumo com felicidade E você sabe que os donos do mundo são bem poucos, talvez sejam meia dúzia em todo o mundo, e será que são felizes? Mesmo os que defendem o liberalismo, esse deus mercado, pensando, talvez, que façam parte ou que sejam aceitos por essa oligarquia, enganam-se ao acreditar que sua atitude lhes trará felicidade. Não passam de feitores. Com certeza, têm uma vida melhor do que a nossa, mas não passam de lacaios. E digo mais, antigamente um terço da população mundial estava fora desse mercado, não era consumista, não por que não quisesse, mas porque não lhe foi dada a oportunidade de rezar na mesma igreja. Dentre esses excluídos, muitos se sentiam infelizes. Hoje, nem um quinto da população do planeta consegue seguir a essa religião, o consumismo. É quase irrisório o número dos que podem consumir alguma coisa; o tal mercado está meio parado, querendo agonizar. Então de que valeu tudo, para que serviram tantas reformas, tanta propaganda e lavagens cerebrais? De que adiantou acabar com a democracia e com outras instituições que, de uma forma ou de outra, organizavam a sociedade? Eu, que sempre fui contra o Estado, pergunto agora: para que serviu acabarem com o Estado? Talvez nossos algozes estejam felizes, talvez a felicidade deles esteja em nos ver sofrer. Quem sabe são apenas sádicos e quem sabe o povo seja apenas masoquista?

- Complicado, Zezé...

Então dona Carol interveio:

- Ei, vocês falam e bebem demais; venham jantar que a noite é longa.

O jantar estava bem bom; arroz com feijão e abóbora. Muito gostoso. E o papo continuou durante o jantar, entremeado com a tosse de seu Nico.

- Ninguém sabe o que é felicidade – disse dona Carol. Eu penso, vejam bem, penso... que sou feliz, mas não posso ter certeza. Sei lá se não seria realmente feliz em outras circunstâncias? Se essa felicidade que sinto hoje não é falsa? Olha jovem, esses dois sempre foram filósofos, assim como o irmão falecido. Sempre foi assim, só que agora estão concordando; antigamente nunca chegavam a um consenso. Aliás, nunca chegavam a lugar algum... E riu muito.

Todos riram. Nessas horas, eu me sentia feliz. Esquecia a chuva, o frio, a falta de trabalho e de dinheiro, o desacerto com a namorada. Gostava mesmo daqueles dois e agora passara a gostar de dona Carol, como se a conhecesse há muito tempo.

- Olha Carol, seu marido sempre foi muito teimoso, por isso é que nossas discussões não chegavam a lugar nenhum, como você diz. Culpa dele!

- Ora, ora, quem diz. Teimoso, eu? Eu sei quem é o teimoso aqui...

Rimos novamente, mas a risada provocou outro acesso de tosse bem forte em seu Nico, que ficou sem ar, e tivemos que ajudá-lo. Depois do jantar, permanecemos em volta da mesa, e a conversa se prolongou até tarde. Mesmo depois da crise, seu Nico continuou a fumar seus cigarros fétidos. Fomos dormir já com a noite avançada. Dona Carol já se recolhera havia bastante tempo. Fui dormir meio triste porque não recebi respostas às mensagens que tinha enviado; estava um pouco preocupado, mas o jeito era esperar.