Décimo Primeiro Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

No dia seguinte, acordei mais cedo, junto com seu Zezé, e fomos surpreendidos por dona Carol, que nos presenteou com um bolo. Ela havia acordado antes de nós, mas nem percebemos, e assou o bolo, mesmo com toda a dificuldade que se encontrava para realizar essa façanha. Eu nem lembrava mais quando é que tinha comido um bolo; acho que foi quando minha mãe ainda era viva. Esse pensamento me trouxe a saudade de minha mãe e, logo, de meu pai. Lembrei de um tempo bom: eu era criança!

Depois desse café da manhã tão espetacular, saímos para conhecer a cidade, como tínhamos combinado na véspera. A chuvinha continuava, o frio estava um pouco melhor. Os dois velhos iam de guarda chuva e eu andava livre, molhando-me como sempre. Mas já estava acostumado: nunca tivera guarda-chuva. Dona Carol não quis nos acompanhar, disse que ia dar um jeito na casa.

Andávamos devagar, pois seu Nico não conseguia andar mais depressa, mas mesmo assim não conseguimos ir muito longe. Ele se cansou de vez, com muita falta de ar e a tosse que não cessava. Paramos sob a marquise de um prédio abandonado, onde um dia deve ter existido algum comércio. A melhora de seu Nico demorou mais de meia hora. Então andamos mais um pouco pelas ruas meio vazias, sempre devagar e, agora, ainda mais lentamente. Passaram alguns carros, mas eram poucos, diferente do que eu tinha imaginado. As pessoas continuavam cabisbaixas, com aquele ar de tristeza que eu já tinha observado.

Assistimos ao assalto a um casal que andava do outro lado da rua. Eram uns seis homens, encapuzados, com aspecto de jovens, mas muito agressivos. Acredito que não encontraram nada para levar e por isso bateram no homem e na mulher, machucando-os bastante e depois sairiam tranquilamente. Quando a agressão começou, corremos para ajudar, coisa que as pessoas de hoje não costumam fazer, porque vivemos no cada um por si deus pra todos. Na verdade eu corri meio sem pensar, meus companheiros não conseguiram correr e chegaram bem mais tarde. Contudo não adiantou minha ajuda, pois, quando cheguei, eles já tinham sido agredidos. Fiquei com medo porque tinha alguns trocados no bolso; o esmarte, eu havia deixado em casa, mas não sabia se os velhos teriam alguma coisa de valor consigo. Os ladrões, porém, foram embora e não voltaram o que foi um alívio. O casal recusou que chamássemos ajuda para levá-los a um atendimento médico – seria mesmo complicado conseguir – e foram manquitolando pela rua.

Seu Nico me repreendeu, dizendo que eu não deveria correr para ajudar, pois era muito perigoso e no fim não adiantaria nada. O mínimo que poderia acontecer era eu apanhar também. Bom, isso eu já sabia e também sabia que tinha colocado em risco a integridade dos dois velhos, o que eu não sabia bem era por que fiz aquilo. Acho que foi um reflexo involuntário. Pensei em ser mais cuidadoso daqui para frente. Na minha cidade, a gente até conhecia a maioria dos bandidos, mas sempre tinha andarilhos violentos, gente de fora, desconhecida e violenta pelas ruas, então os riscos eram quase os mesmos que na cidade grande.

Não muito longe, precisamos parar novamente para seu Nico respirar. Paramos em um mercadinho que, por incrível que pareça, tinha as portas abertas, bem diferente dos mercados lá da minha terra. Mas, como lá, tinha seguranças na porta. Descansamos um pouco ali.

- Lembra Zezé, ali – e seu Nico apontou ao longe – ficava o Majestoso, o campo da Ponte.

Ele falava com muita dificuldade devido à falta de ar que sentia.

- Pois é Nico; fui lá uma vez ver um jogo. Nem me lembro mais que jogo foi.

- Pois então, eu fui muitas vezes. Tempo bom quando tinha futebol. A Ponte ainda existe, o Guarani também, mas acho que nem jogam mais, ou só por aí, em torneios daqui mesmo.

- Ô Nico, o povo não invade essas casas abandonadas, esses prédios vazios?

- Invadiram muito, chegaram até a expulsar os moradores, a botar as famílias na rua, tomando suas casas, mas, penso, viram que não adiantava. Melhor viver nas ruas ou em seus barracos, têm mais ajuda, não precisam limpar tanto, nem consertar muito, penso eu. E, depois, uns invadiam e vinham outros para expulsá-los, e outros ainda. Era uma guerra. No fim é isso que vocês estão vendo: um monte de casas abandonadas, caindo aos pedaços. Em prédios, ainda moram algumas pessoas nos andares mais baixos, porque subir e descer escadas o tempo todo não é fácil. Por outro lado, a população da cidade diminuiu muito, então se vê muita moradia abandonada.

- Melhor voltarmos, Nico, você está muito cansado.

- É, desculpem, mas me canso fácil agora.

Então voltamos, mas, antes, entrei no mercadinho e comprei duas garrafas de cerveja. Mesmo sabendo que aquele dinheirinho poderia me fazer falta, valia a pena agradar aos meus amigos.

Demoramos muito tempo para chegar em casa, tínhamos que andar bem devagar. Eu cheguei absolutamente encharcado e tive que trocar a roupa. Certo que só tinha duas, então teria que secar as que estavam molhadas. Dona Carol me ajudou, pendurando-as num varal num canto da cozinha, o cômodo mais quente da casa. Mesmo assim demoraria uns dois dias para secá-las.

O almoço já estava até frio, mas almoçamos com satisfação, acompanhando a refeição com a cerveja que comprei. Mesmo quente a cerveja estava deliciosa. Quer dizer, quente mesmo não estava, por que nesse tempo não há como qualquer coisa ficar quente. Depois os dois velhos ficaram sentados conversando, enquanto eu fui ajudar dona Carol a arrumar a cozinha, mas, de lá, ficava escutando os dois.

- Nós não vamos ver muita coisa mais nesse mundo, Nico. Você ainda tem mais tempo que eu, mas, mesmo assim, não acredito que ainda verá alguma melhora na vida das pessoas. Eu sei que ainda existem algumas pessoas lutando para mudar as coisas; sei também que são muito poucos e penso que não conseguirão nada. É mais ou menos como aconteceu conosco: lutamos, sofremos, perdemos muito e, no fim, não conseguimos nada. Pagamos caro por nada e no fim desistimos...

- Não desistimos, não, Zezé, apenas não pudemos continuar a luta como vínhamos fazendo, só mudamos o jeito de lutar. Você... E eu ainda estamos na luta. Só o fato de você se dispor a conversar, sem medo, com qualquer um, abrir nossos olhos e nossa mente, mostrar as coisas como realmente são, já é uma luta poderosa. Você, na verdade, é um ganhador. Você é o esteio, o farol para esses jovens que ainda sonham, que ainda querem aprender alguma coisa. Isso tudo é vida; a vida teima em continuar! Eu ainda sou dos que pensam que quem vive o amor nunca quer ferir e que quem não fere vive tranquilo: vê muita gente feliz!

- Pode ser, mas estou cansado, estou já do meio dia pra tarde, como diz um amigo meu.

Sentei à mesa com meus amigos e continuamos a tomar um chorrilho de cachaça em meio à conversa e às lembranças. Eu me enrolei numa coberta, estava com frio e fiquei com medo de adoecer depois da molhadeira do dia.

- Zezé, você ainda é muito forte, vai viver ainda muito mais do que eu, que já estou bem estragado. Você deveria morar em uma cidade maior, teria mais aprendizes, teria mais gente para conversar, para ensinar. Você é um líder e tem experiência e conhecimentos amplos que poderiam ajudar muito, não só na luta para melhoria da vida das pessoas, mas até para o dia a dia de cada um.

- Ah não, Nico. Cidade grande seria o meu fim. Lá, onde estou morando, me deixam mais ou menos em paz, apesar da luz do poste em frente à minha casa, que não se apaga nunca, isto é, havendo energia. Se morasse aqui, por exemplo, e falasse muito, já já estaria na cadeia de novo. Não, muito obrigado! E, enfim, estou mesmo desanimado, penso que as coisas jamais serão melhores, não vejo muita perspectiva de que um dia poderíamos viver melhor. Não é pessimismo, não, é constatação. Nesses dias estive relendo um livro sobre revoluções e vi isso: poucas vezes atingiram seus objetivos e quando o conseguiram foi, quase sempre, efêmero. Aos poucos as coisas voltam a ser como querem os donos do poder, os nossos donos.

- Você está mais ou menos certo, Zezé – disse dona Carol. Está certo quando fala sobre as dificuldades de se conseguir alguma justiça social, como bem testemunhou meu marido teimoso aqui, quando advogava. Mas está errado quanto a estar perto do fim; você vai longe! E eu vou dormir que amanhã é outro dia e a chuva não vai parar mesmo... Boa noite para todos.

Todos lhe desejamos boa noite, quase em uníssono. Parecia ter sido ensaiado. Seu Nico continuou:

- Mas houve um tempo melhor, ou não? Houve uma época em que as coisas estavam meio em paz, com democracia, mesmo que não fosse perfeita, mas era uma democracia, com Estado de Direito presente e ativo, promovendo o bem estar social e o progresso econômico e científico, com grande evolução tecnológica. Claro que ainda assim surgiu essa religião absurda do consumismo desenfreado e a adoração do deus mercado, que por fim levaram à situação atual, mas penso que foi mesmo por descuido nosso, culpa do povo, dos que mesmo percebendo o que vinha ocorrendo não souberam ou não conseguiram alertar corretamente as pessoas. O golpe veio em função dessa mudança e os que estavam vivendo de forma mais digna e aproveitando o momento de paz e crescimento não reagiram, entregaram-se, acreditaram nas bobagens que a mídia divulgava de forma muito intensa.

- Mas as pessoas são pouco culpadas, Nico. Talvez possamos dizer que os mais privilegiados cognitivamente, ou os que teriam condições de estudar mais, compreender melhor, perceber as mentiras divulgadas diuturnamente para justificar as mudanças que queriam fazer, tivessem mesmo culpa; foram pelo menos omissos ou, quem sabe, ingênuos. Talvez seja isso mesmo: ingênuos. Acreditaram sempre no conto de fadas do capitalismo, do liberalismo econômico, imaginando que poderiam vir a ser o príncipe encantado ou a linda princesa escolhida para a felicidade suprema. Quem sabe ganância? Talvez não fosse tanto ingenuidade, mas ganância suprema; pensaram que a ganância suprema traria a felicidade suprema; que o individualismo exacerbado faria de cada um deles um ganhador, um milionário ao modo de um self made man, de um super man particular. Nesse tempo que você lembrou as coisas poderiam ter se estabilizado e toda a sociedade humana poderia ter encontrado um equilíbrio de tal forma que a humanidade, e nosso planeta também, seguissem em harmonia por muitos séculos. Perdemos uma boa chance. Mas o golpe, as mudanças, já estava a caminho enquanto as pessoas se distraiam, e eram distraídas, nos shoppings, nos maravilhosos cruzeiros a preços de ocasião, curtindo faces, whats, streamings, tapando os olhos e os ouvidos, buscando o prazer, a “felicidade” pessoal e imediata, a qualquer custo trocando suas vidas pelo mais absurdo hedonismo. A humanidade sempre se portou como um náufrago que não sabe nadar: se agarra na primeira coisa que alcança, mesmo que seja uma âncora!

- Então! No fundo acabam sendo mesmo culpados, nem que seja por omissão ou por burrice mesmo, incapacidade de entender o que ocorre ao seu lado. No fim, todos nós somos culpados pela vida que levamos, por essa merda toda! Eu às vezes gostaria de ter sido um herói, que dá sua vida em benefício do próximo, um Jesus, um Tiradentes. Pelo menos morria com a consciência tranquila... Mas também não adiantaria bosta nenhuma.

- Mas, Nico, ninguém fez mais do que você para evitar que a situação viesse a ficar como está. Você foi, e é, o verdadeiro herói; se não morreu, se não foi torturado, é apenas devido às circunstâncias, e você sabe disso. Poderia muito bem ter morrido e hoje fazer parte do panteão dos mártires, é ou não é? E teria adiantado muito pouco, não teria mudado nada, e nós não teríamos essa oportunidade de estar aqui gozando esses momentos tão bons com você e ouvir tudo o que você nos fala. Não estou puxando seu saco, não, estou sendo sincero. Você fez o que poderia ter feito, ou melhor, fez mais do que qualquer um teria feito. Temos muito orgulho de você, e a prova é o que seus amigos e mesmo os que te conhecem pouco têm feito por você nesses anos todos. Isso é a prova do reconhecimento que você tem e merece, em praticamente todo o país.

- Tá bom!... Mas é melhor ir dormir, a Carol já deve estar quase acordando, é bem tarde.

E fomos dormir. Peguei logo no sono, mesmo com uma barulheira estranha que acontecia na rua; devia ser alguma briga, mas nem fomos ver o que era. Estávamos já acostumados a essas coisas. Pela manhã, procurei ver se tinham respondido minhas mensagens, mas não havia nada. Fiquei preocupado, mas não tinha o que fazer senão esperar.

Seu Zezé parecia cansado. Após um café bem simples, ficou sentado na sala, enrolado num cobertor. Seu Nico saiu, tinha que resolver algumas coisas. Dona Carol ficou lá conversando com seu Zezé, então resolvi sair também e dar umas voltas.

Andei bastante, pensei em ir até o velho campo da Ponte, mas fui interrompido por uma mensagem do meu cunhado. Minha sobrinha Patri tinha suicidado. Enforcou-se pendurada num caibro de uma cobertinha que tínhamos sobre o tanque nos fundos da casa. Claro que me abalou bastante, fiquei muito triste e muito preocupado com minha irmã. Voltei caminhando devagar, as lágrimas se misturando às gotas da chuva, errei duas vezes o caminho e cheguei em casa já na hora do almoço.

Troquei de roupa, mas as outras roupas ainda estavam úmidas, almocei rapidamente e deitei-me em meu colchonete, enrolando-me aos cobertores e até dormi um pouco. Meus amigos não me incomodaram. Acredito que eles pensaram que eu estava apenas cansado.

Não contei a ninguém sobre o acontecido.