Décimo Segundo Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Já havia cinco meses que a chuva não cessava. A cidade estava a cada dia mais vazia. Numa tarde, chegaram alguns amigos do seu Nico; vieram rever seu Zezé e saber sobre a saúde do amigo. Dos quatro, dois eram tabagistas, então a casa, que era pequena, ficou mesmo muito enfumaçada. Todos já velhos, mas faladores. Nem me lembro direito o nome de todos. Um era José, Zeca; outro, se não me engano, Asdrúbal, também advogado. Dos outros, não me lembro dos nomes.

Conversamos até tarde. Na verdade, eu praticamente só ouvi, assim como dona Carol, que se manifestou pouco, como era seu costume. Mas serviu bolinhos e até umas tiras de carne de porco fritas. Tomamos um vinho que seu Nico abriu com viva alegria e, depois que acabou o vinho, nossa velha companheira, a cachaça. Os velhinhos eram bons de copo.

O que me chamou mais a atenção foi uma conversa sobre crianças. Quem trouxe o assunto à tona foi o advogado, Asdrúbal ou coisa parecida.

- Seu Zezé, o senhor andou pela cidade? Percebeu que quase não se veem mais crianças?

- Olha aqui, vamos deixar dessas coisas de senhor, tá bom?

- Bem, desculpe, saiu sem querer, vícios antigos, dos tempos em que havia alguma educação.

- Pois, eu também tenho essas manias, vícios de linguagem e de educação, como você diz. Mas eu andei pouco por aí; a chuva atrapalha. Mas, agora que você falou, notei mesmo que tem pouca criança, mas lá onde nós moramos também é assim, cada vez menos crianças. Era de se esperar, já que a vida, ou a sobrevivência, tornou-se tão difícil, as pessoas tendem a evitar os filhos, talvez até para não vê-los sofrer. Afinal, falta tudo, falta comida, falta roupa, falta escola, médico, remédio, enfim, não está fácil criar e educar uma criança. A mortalidade infantil também aumentou, mas temos que lembrar que a violência em que vivemos impede que as crianças saiam sozinhas e mesmo acompanhadas, assim os pais preferem mantê-las dentro de casa, buscando mais segurança. Alguns têm medo até de deixar os filhos frequentarem a escola. Por outro lado, nem temos mais casamentos. Tudo está mudado, tudo muito largado...

- Se continuar assim, Zezé, essa merda de não se ter mais filhos pode acabar com a humanidade – disse seu Nico.

- Mas muda, Nico. As coisas mudam sempre. Pode ser que daqui algum tempo as pessoas voltem a ter filhos. O que pode acabar com a humanidade, com muito mais certeza, é a tecnologia genética, a microtecnologia, com a fabricação de humanóides, como estamos observando ou os novos algoritmos superinteligentes que operam quase tudo. Pode ser que os seres humanos venham a reagir a isso tudo e salvem nossa existência e, quem sabe, criem mecanismos para que finalmente possamos viver com dignidade, com democracia, com segurança e até com felicidade. Tudo é possível, inclusive que não haja reação alguma e que toda essa tecnologia venha a causar nossa extinção, até mesmo o desaparecimento da vida biológica como um todo. Contudo ainda acredito que existam pessoas melhores do que nós dois, que acreditem em algum futuro e lutem por isso. Acredito mesmo que ainda existam pessoas dispostas a lutar por uma sociedade melhor.

- Qualquer coisa é melhor que essa merda de vida que temos hoje – disse seu Nico.

- Mas o Zezé está certo – retrucou o outro José, o Zeca.

- O Zezé é mais otimista que nós, Nico – comentou o advogado.

- Tá certo – continuou seu Nico. Mas o Zezé se esquece de que as pessoas são indiferentes, cegas para tudo que as rodeia e covardes para tomar posições. Vejam quanta gente apoia essa porra de “novo governo democrático do povo”? São pessoas que se fazem voluntariamente cegas; são cegas intencionalmente... Quem estará disposto a lutar, se isso trouxer algum sofrimento? Há muito tempo o povo não sai às ruas para reivindicar nada e, penso sinceramente, nunca mais vai sair. Só procura sobreviver, cada um por si, mesmo que seja sobreviver na merda!

- Isso mesmo, Nico – interrompeu seu Zezé. As pessoas, de modo geral, abandonaram a luta e as tentativas de quebrar o eterno círculo vicioso: ignorância-miséria-ignorância. Hoje não há mais a interação pessoal, as pessoas vivem isoladas numa sociedade de relacionamento virtual. Se alguém pensa em se manifestar não encontra um companheiro ao lado, a quem possa dar a mão e sentir o calor humano, o apoio que necessita para continuar. Antigamente, ainda havia a revolução do “cada um no seu sofá”, deflagrando revoltas ou manifestações pelo celular. Hoje nem isso, já que o esmarte é censurado e as mensagens que poderiam afetar negativamente os interesses do governo são bloqueadas. Então nada pra cá e nada pra lá, só a mesmice do sofrimento individual.

Nem jantamos. Dona Carol já tinha se recolhido quando os amigos foram embora. Foi muito interessante ouvir os casos, as lembranças, as histórias da juventude de todos eles. Parecia até um filme, ou uma peça de teatro, coisa que eu só conhecia por ouvir dizer. Rimos muito e ficamos tristes também em alguns momentos; nem todas as lembranças são boas ou alegres.

No dia seguinte, fui com seu Zezé ao banco; ele precisava receber seu dinheiro. Não conseguimos; o sistema estava fora do ar e ainda fomos muito mal atendidos, com muita má vontade. Demorou dois dias para ele conseguir retirar o dinheiro. Do banco, fomos direto à rodoviária comprar as passagens de volta, mas não conseguimos. Os ônibus não estavam indo até São José, as estradas estavam impraticáveis. Teríamos que esperar um pouco para o retorno.

Então, com tantas andanças sob chuva e frio, seu Zezé adoeceu. Acordei com o ruído de uma tosse que ele procurava abafar e pela manhã ele não se sentia bem. Passou o dia deitado sob as cobertas, tossindo muito e quase não se alimentou.

Disfarçadamente, seu Zezé entregou um pouco do dinheiro que tinha recebido ao seu irmão. Ele disfarçou, mas eu percebi. E era justo, afinal estávamos dando muito despesa ao casal de velhos que nos hospedava. Eu tinha muito pouco dinheiro; havia gasto um pouco para colocar crédito no esmarte, já que de vez em quando procurava encontrar a Shannya, sem sucesso, e tinha comprado aquelas duas cervejas, já fazia muito tempo. Mesmo assim, pensei em dar algum dinheiro ao seu Nico, mas desisti, porque iria precisar dele para quando voltássemos.

Dona Carol arranjou um xarope e alguns comprimidos que aliviaram um pouco o professor, mas nos dias seguintes ele foi piorando até que seu irmão teve que achar um jeito de levá-lo ao médico. Foram ao velho amigo de seu Nico que lhes deu algum medicamento. Isso trouxe uma melhora razoável ao seu Zezé, mas sem uma cura total.

Assim os dias passavam e nós não conseguíamos voltar para casa. A chuva não parava, já nem me lembrava há quanto tempo chovia sem intervalo. Então pensei em procurar algum emprego, alguma coisa para fazer e ganhar dinheiro. Seu Nico achou que não valia a pena, mas mesmo assim saí procurando alguma coisa e dei sorte: no terceiro dia fui contratado como segurança numa loja, mesmo sem ter experiência. Acho que meu jeito de ser, minha educação e meu ar de honestidade ajudaram.

Trabalhei pouco mais de um mês, sofremos quatro assaltos, recebi meu salário, coisa que há muito tempo eu não sabia o que era. Fiquei tão encantado que pensei em me mudar para Campinas e ter sempre um salário no fim do mês. Comprei umas garrafas de cachaça e uma de conhaque, que era uma merda, já que eu não entendia nada de bebidas. Cheguei em casa alegre, doei um pouco do dinheiro para dona Carol, que a princípio recusou, mas, depois, acatando os conselhos de seu Zezé aceitou de bom grado.

Como ficava o dia inteiro fora, tendo folga apenas aos domingos após o almoço, só conversávamos à noite. O papo continuava sempre bom e eu aproveitava meus amigos para aprender um pouco sobre a vida. O tal do seu Zeca aparecia vez ou outra, mas em geral à tarde e eu quase não o via, só quando se deixava ficar até a noite. Os outros amigos do seu Nico, que eu havia conhecido naquela tarde, não os vi mais, mas sei que apareciam de vez em quando, à tarde.

Seu Zezé quase não saia. A princípio pensei que ainda estivesse doente, depois pensei que estava triste por não poder voltar à sua casa, mas ele não falava nada, mesmo que eu perguntasse, dava sempre uma desculpa boba.

Uma noite, seu Nico perguntou sobre a saúde do irmão, enquanto estávamos ao redor da mesa, após o jantar.

- Estou bem – respondeu seu Zezé.

- Mas você anda meio borocochô, nem quer mais escutar o rádio, não liga o esmarte, quase não conversa.

- Na verdade eu tenho sentido umas dores aqui, mas não é nada. Estou é preocupado com os acontecimentos. Mesmo estando aqui dentro, ainda escuto algumas coisas. Parece que está havendo algum movimento novo que o governo procura esconder. Então não adianta ouvir o rádio, porque não darão as notícias verdadeiras, mas eu sinto que existe um zum-zum-zum rolando por aí.

- É verdade Zezé, eu não quis comentar com você porque estava preocupado com sua saúde, mas na rua estão correndo boatos de que pode estar havendo algum movimento contra o governo. Não sei dizer se é verdade ou não, nem se é coisa boa ou ruim. Agora, você sabe que quando há fumaça há fogo... Quem sabe é sério?

- Será por isso que estou vendo mais polícia e muitos soldados pelas ruas? – perguntei.

- Você também notou, não é? Então, Zezé, isso não é um bom sinal? Será que esses boatos não teriam um fundo de verdade?

- Bom sinal? – perguntou dona Carol. Bom sinal de que ou pra quem?

- Ora mulher, pra nós! Sinal de que as coisas podem mudar, finalmente.

- Não acredito, não, Nico. Se houver alguma coisa é um grupo de ricos contrariando outro grupo de ricos. São capitalistas com poder querendo tirar ou passar por cima do poder de outros capitalistas. Deve ser tudo farinha do mesmo saco. Acho que o povo não se revolta nunca mais; acostumaram-se à vida de semiescravos, porque os escravos antigos tinham pelo menos alguma moradia e comida suficiente para não morrer e nós, escravos modernos do liberalismo, nem isso temos. Nosso único direito, hoje, é sobrevivermos sob chuva e sob frio, com pouco agasalho, diga-se. O Zezé está certo, Nico. Não acredito em melhora, não acredito em revolta, não acredito no povo nem em ninguém. E, se porventura alguém se revoltar, vai acabar pagando, como nós, como o Zezé. Vai servir de exemplo aos mais afoitos, como nós hoje servimos de exemplo para não se atreverem a nada, porque o castigo é severo, o sofrimento de quem é condenado é muito grande.

Dona Carol era decidida, falou sério, como que chamando a atenção dos dois irmãos para não se deixarem levar por uma quimera.

- Ê Carol, pode ser que o Zezé esteja errado. Nem sempre ele está certo e, de repente, pode estar errado agora!

- Pode, mas acho que está certo!

- Não estou certo nem errado, só penso que não podemos ficar dando ouvidos a boatos, ou querendo antecipar uma coisa só porque a desejamos. Depois de tantos anos, tantas perdas, da cadeia e de tantos choques elétricos, eu aprendi que o melhor é ter os pés no chão. Isso também não quer dizer abandonar a luta, aceitar as coisas sem se revoltar, ou deixar de lado a procura pela verdade, pela justiça. Não, não podemos nunca abandonar nossa compreensão das coisas ou a busca pelo conhecimento e pela capacidade de aprender, de comparar, de pensar. Se o sofrimento nos ensina alguma coisa é isso: pensar, conhecer cada vez mais e melhor, estudar, analisar e, por fim, tirar alguma conclusão. Mas vejam bem, não importa muito se a conclusão a que chegamos está certa ou errada, mesmo porque nunca saberemos o que é absolutamente certo, nunca saberemos a verdade definitiva. O importante é estar vigilantes e prontos a reconhecer e modificar nossos erros, ao mesmo tempo em que não podemos, ou não deveríamos, ser tão prepotentes e nos acharmos perfeitos, sempre certos, imunes a erros. Não temos o direito de sermos tão presunçosos. Tenho muita dificuldade de entender as coisas, por isso estudei a vida inteira, li muito, ouvi muito, pra ver se aprendia alguma coisa nesta vida. Confesso que hoje eu penso que aprendi muito pouco, que a cada dia tenho mais dúvidas sobre tudo, mas, como o Nico disse um dia, não estou disposto a desistir. Ainda penso que posso aprender algo, que ainda posso vir a ser útil pra alguém ou para o que puder ajudar...

- Falou muito bem, Zezé. Eu agora estou incapacitado, estou inválido para quase tudo, senão iria sair com você por esse mundão de deus, ensinando as coisas que você sabe ensinar, quer dizer, ajudando você a ensinar.

- Que bobagem Nico. Onde é que tem alguém inválido aqui? Você é o mais esperto de todos nós e quem ensina é você.

- Veja, Zezé, nós estamos velhos, eu não estou bem de saúde e você sabe disso. Nosso futuro depende de pessoas como esse seu jovem pupilo, que, ao que parece, caminha por estradas certas. Então, veja, será que não podem existir outros como ele? E, olhe aqui, meia dúzia de jovens como esse – e nesse ponto bateu em minhas costas e abraçou-me com força – podem fazer um estrago, podem mudar muita coisa.

Fiquei até orgulhoso de ver seu Nico falar assim de mim. E, enquanto falava e me abraçava, tossia muito.

- É mesmo um jovem educado e interessado – interveio dona Carol, sorrindo para mim.

- Obrigado – disse eu meio sem jeito. Não sou nada disso, mas gosto de aprender, por isso gosto de ficar com vocês e com seus amigos. Aqui tenho três grandes mestres.

Acho que até fiquei com a cara vermelha ao dizer isso, mas achei que deveria agradecer.

- Então – continuou seu Nico – pode ser que esteja acontecendo alguma coisa. Um amigo de São Paulo me mandou uma mensagem, meio truncada, como se estivesse usando um código, sei lá, mas, pelo que consegui entender, a cidade está agitada, tem exército nas ruas, e, parece, devem determinar toque de recolher. Se é assim, então?

- Sei não! – disse dona Carol.

- É. Melhor aguardar, quem sabe alguém possa nos informar melhor? E eu vou dormir.

E fomos todos descansar.

No dia seguinte, assuntei lá na loja sobre os boatos. Ninguém quis falar nada, mesmo porque tínhamos sido assaltados logo de manhã e um amigo meu, guarda também, fora baleado. Cheguei a lutar com um dos assaltantes e machuquei a mão, mas ele saiu bem ferido e o patrão me elogiou. À tarde, ele veio até a porta onde eu estava de guarda e indagou por que eu estava perguntando sobre revoluções. Disse que estava só curioso; tive medo de desagradá-lo.

Meu segundo salário serviu para comprar alguma roupa e um sapato novo, já que o meu estava furado. Pensei em comprar um guarda- chuva, mas estava muito caro e eu queria dar algum dinheiro para dona Carol, afinal vivia e comia lá.

Não consegui manter contato com meu cunhado nem com minha namorada durante todo esse tempo, embora tentasse quase todos os dias. Os ônibus ainda não chegavam a São José, indo só até Igaraçu, que pra nós era muito longe.

Alguns dias depois de machucar a mão no assalto, sofremos um arrastão, fomos saqueados por um bando de moradores da região, que levaram muita coisa, promoveram muita quebradeira na briga em que nos envolvemos e provocaram o fechamento da loja. Além disso, machucaram-me a cabeça, o braço e o joelho esquerdos, e deixaram-me um hematoma que me fechou o olho direito por muitos dias.

Perdi meu emprego.