Décimo Terceiro Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Fiquei em casa uns dias, não tinha como procurar novo emprego devido aos ferimentos. Seu Nico disse que tive até sorte; poderia ter morrido ou me machucado gravemente.

Dona Carol e seu Zezé me cuidaram com muito carinho.

Nesses dias em que eu estava de molho, reencontrei seu Zeca, que vira e mexe aparecia para um trago e um papo.

Não havia novidades quanto a um possível movimento contra o governo, os boatos eram os mesmos, sem qualquer certeza, mas mesmo assim, em uma tarde em que estávamos conversando, seu Zeca perguntou:

- Nico, você tem ouvido os boatos que estão correndo? Parece até que existe algum fundamento nessas histórias.

- Temos ouvido alguma coisa, né, Zezé? Eu penso que pode estar havendo de verdade algum movimento, mas o Zezé aqui não acredita muito...

- Ora Nico, voltamos ao ponto, não é que eu não acredite, apenas tenho os pés no chão e não quero ter falsas esperanças. Veja Zeca, o Nico está otimista, o que é que você pensa a respeito?

- Eu estou como você Zezé. Escuto, pergunto aqui e ali, mas não tenho opinião a respeito. Nós somos velhos, temos lembranças, temos saudades, mas eu gostaria que o fim da minha vida fosse um pouco melhor, talvez como aquela que tínhamos antes do malfadado golpe!

- Pois é – disse seu Nico – deram um golpe de merda, foderam com a vida de todo mundo, e pra que serviu tudo isso? Pra que acabar com os direitos de toda uma população, vender todo um país de forma vil, entregar aos interesses econômicos a vida de todos nós? Serviu para alguma coisa essa merda toda?

- Tá vendo Nico – argumentou seu Zezé – nós voltamos sempre ao mesmo ponto. Falamos, falamos, falamos, nos revoltamos, xingamos, mas as coisas continuam na mesma. Como disse o Zeca, somos apenas um bando de velhos com saudades. Continuamos sob o truque mal feito dos magos e o chicote dos domadores. Realmente não serviram para nada, o golpe, as reformas, todas as mudanças, toda a sacanagem que nos fizeram. Tiraram a presidenta eleita para nos dizer que a democracia não vale nada; fizeram uma nova constituição para nos mostrar que as leis podem ser mudadas ao bel prazer de quem tem o poder, de quem é dono do capital; fizeram reformas trabalhistas, previdenciárias, comerciais, jurídicas e políticas para nos mostrar que a propaganda bem feita funciona mais do que qualquer consciência. Chamaram-nos de bobos. Pelo menos sobrou a satisfação de ver que os cegos que apoiaram o golpe e as reformas, os que tacharam o ex-presidente de ladrão, os que endeusaram aquele juiz safado e os nazistas também se lascaram: estão na mesma situação que nós, homens comuns. A perseguição ao presidente que mudou os paradigmas do poder só pode ser explicada pelo preconceito absoluto, mesmo porque ele não prejudicou os donos do capital em nada, ao contrário, ajudou-os a ganhar ainda mais. E, mesmo assim, melhorou muito a vida do povo e promoveu o crescimento econômico, um engrandecimento de nosso valor perante o mundo, ampliou de forma nunca antes vista a educação dos menos privilegiados, entre tantas outras ações benéficas, numa tentativa inusitada de melhorar nosso país e nossa vida.

- Isso mesmo, Zezé! Ele até apoiou os capitalistas e fez com que lucrassem ainda mais, aumentando muito seus ganhos – interrompeu seu Nico.

- E não peitou os donos da mídia – continuou seu Zeca. Talvez seja por isso que tenha dançado.

- Claro, não foi o governante que os mais progressistas e socialistas desejavam, mas temos que dar um desconto, porque se não agisse assim não teria ficado nem um ano no poder; o golpe teria sido antecipado em quinze anos. Por outro lado, Zeca, ele não tinha força suficiente para interferir no oligopólio da mídia, embora eu pense que ele acreditasse que poderia ser aceito pelos proprietários dos meios de comunicação de massa, já que não havia alterado em nada os ganhos dos donos do capital. A mídia de massa era muito poderosa naqueles tempos. Seus donos também perderam, embora, evidentemente, não tenham ficado pobres, deixaram de ter em suas mãos um pouco do enorme poder que detinham.

- E bota poder nisso – completou seu Zeca. Aquela rede global mandava mesmo no país.

- Mas no fim ficou tudo na mesma merda – prosseguiu seu Nico. Os antigos proprietários das mídias ainda mandam e não deixaram nunca de fazer parte da elite dominante. Estão lá, comandando e usufruindo. É interessante como a classe dominante é unida; se perdem aqui dão um jeito de ganhar ali e uma mão lava a outra. Quando brigam, quando um quer puxar o tapete do outro, é entre eles, ninguém de fora fica sabendo; trocam os donos do poder somente entre eles mesmos. O povo ao contrário raramente se une, parece que nem troca informações entre si, pois raramente deixa de ser enganado. Um não acredita no outro, prefere crer nas mentiras publicadas pela mídia vendida. Vendida não, propositadamente safada, já que pertence à elite, à oligarquia dominante.

- Pois é, Nico. Na história da humanidade, ainda não houve uma democracia real, assim como nunca existiu uma divisão justa da produção e da riqueza. Parece que essas coisas só aconteceram lá na pré-história, quando surgiu o homo sapiens ou ainda antes, em povos de cultura muito primitiva. Sendo assim, quem tem o poder tem tudo: tudo pra nós e nada pra eles. Vejam como os estadosunidos sempre se julgaram acima dos outros e quiseram dominar o mundo desde o Monroe, há duzentos e tantos anos. Hoje, submetem-se à China, mas até certo ponto. De repente ainda vão à luta, não duvido muito, pois ainda mantêm muito poder. Então, meu filho, como é que a mídia de massa poderia ter sido diferente se surgiu lá, se formou impérios econômicos, seguindo as doutrinas daquele país e defendendo seu modo de ver os outros países, de se achar dono do mundo?

A chuva havia diminuído bastante, praticamente parou. Quando percebemos saímos para ver a tarde sem chuva; fazia muito tempo que não tínhamos nem um pouquinho de chão seco. Ficamos felizes, quem sabe teríamos alguns dias secos? Mas estávamos vacinados, nossa esperança era sempre com um pé atrás.

Nos dias seguintes, a chuva parou de vez, secando um pouco o chão, embora o sol não tenha dado as caras. O frio continuava. Fui verificar, mas os ônibus ainda não chegavam a São José. Havia, porém uma boa perspectiva: parece que estavam arrumando a estrada.

Por fim, recebi a notícia tanto esperada que os ônibus voltariam a circular, o que me deixou muito contente. Mas no mesmo dia recebi uma mensagem da Shannya, pedindo que não a procurasse mais, porque estava namorando outro e não queria mais me ver. Uma alegria seguida de uma tristeza ainda maior.

Pior foi no dia seguinte: seu Zezé voltou a ficar doente. Acordou na madrugada tossindo muito. Pela manhã tinha febre, tossia e nem quis comer nada. Consegui alguns medicamentos e, à tarde, ele estava um pouco melhor. Contudo, à noite, piorou. Na manhã seguinte tinha febre alta com calafrios. Tivemos que levá-lo ao médico, dr. Oliveira, o amigo do seu Nico, que o atendeu e prescreveu uma lista de medicamentos. Ele estava com pneumonia.

Claro que não teríamos como conseguir tantos remédios. O dr. Oliveira nos arrumou alguns, mas tive que juntar uns restinhos de dinheiro e a reserva para as passagens e sair à caça dos medicamentos restantes. Consegui quase todos, faltando apenas um.

Os dias seguintes foram de cuidados para com o velho, na verdade com os dois, já que seu Nico também apresentava uma piora, embora não estivesse tão mal quanto seu Zezé. Em poucos dias, seu Nico melhorou, mas seu Zezé não. Tivemos que dar um jeito de encontrar um carro para levá-lo de volta ao hospital, onde ficou internado, graças, mais uma vez, aos préstimos do dr. Oliveira, que se mostrou de fato um grande amigo.

Nos poucos dias em que ele ficou internado, eu passava quase o tempo todo no hospital. Ia à casa da dona Carol algumas vezes, trocar de roupa, que ela gentilmente cuidava, e conversar um pouco com seu Nico, que devido à sua própria doença, ia muito pouco ao hospital.

Mas seu Zezé não apresentava melhora, ao contrário, após umas três semanas ele piorou muito e, por fim, numa noite em que a chuva tinha voltado bem pesada, com trovões e relâmpagos muito fortes, meu velho mestre faleceu.

Dois dias antes, quando estávamos sozinhos, ele me chamou e quis conversar. Falava bem baixinho, com muita dificuldade, obrigando a que eu encostasse a orelha junto aos seus lábios, entrecortando as falas com a tosse. Estava muito fraco, muito mais magro do que sempre fora, uma palidez assustadora, e suava, tinha a pele bem úmida.

- Sabe, eu não me arrependo do que fiz. Só fico triste por não ter sido capaz de proteger mais minha família; sei que eles sofreram muito. Tentei ser honesto em minha profissão, tentei ensinar não só a história, mas as verdades que aprendi a reconhecer durante essa longa vida e tentei viver de acordo com minhas convicções. Eu acreditei no homem como um ser inteligente; acreditei na sociedade como sendo capaz de se organizar e se governar; confiei na ciência e na justiça dos homens; confiei que haveria uma pátria. Errei em quase todas as minhas crenças, mas disso não me arrependo também, não penso que fui um ingênuo. Acreditei porque quis acreditar, mesmo quando observei os erros em que a humanidade estava se metendo, os caminhos da destruição que meus semelhantes estavam trilhando.

- Sei que prejudiquei você trazendo-o para cá por tanto tempo, fazendo com que você tivesse que modificar seus planos e, por isso, peço que me perdoe. Da mesma forma, gostaria de pedir desculpas ao Nico e à Carol pelos transtornos que causei, mas sei que não terei tempo de conversar com eles, por isso peço que transmita a eles esse meu pedido. Com os demais a quem eu tenha prejudicado, vou ficar na dívida.

- Quanto a você, saiba que sua vida ainda vai ser muito diferente; você ainda vai ver muita mudança e talvez, ou melhor, quase que com certeza, para melhor. Acredite que existe um futuro, o seu futuro. Não esmoreça; trabalhe para que seu futuro seja realmente melhor, para que você e todos venham a ser mais felizes...

Neste ponto parou exausto e uma lágrima correu por seu rosto já úmido. Eu também tinha o rosto banhado por lágrimas abundantes que não consegui segurar.