Décimo Quarto Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Enterramos seu Zezé num cemitério não muito longe da casa de seu Nico. O corpo teve que ficar numa gaveta devido à lama e à terra encharcada.

Os dias de luto foram muito difíceis para todos nós. Recebemos poucas visitas: seu Zeca, o advogado, e alguns outros.

Eu tinha que ir embora, mas tinha pouco dinheiro, não dava nem para as passagens. Seu Nico e dona Carol pediram pra que eu não fosse, pois gostariam que eu ficasse morando com eles indefinidamente. Usaram de todos os argumentos, de que se sentiriam mais seguros, de que eu poderia ajudar nas vendas que seu Nico já não conseguia fazer, que poderia ajudar a cuidar do seu Nico e mesmo da dona Carol, enfim, apelaram a todos os santos para que eu ficasse.

Por fim, eu lhes disse que precisaria ir até minha cidade para ver como minha irmã estava e, conforme as coisas estivessem, poderia até voltar e morar com eles, mas sem promessas definitivas. Só não sabia como arranjar o dinheiro para a viagem.

Fui surpreendido mais uma vez pelo meu velho mestre: ele havia deixado um dinheirinho para mim, para que eu pudesse retornar à minha casa. Junto tinha deixado instruções para o que fazer com sua casa e suas coisas. Seu Nico me contou que também tinha deixado algum dinheiro para ele e dona Carol. Seu Zezé era mesmo uma pessoa especial.

Ainda fiquei alguns dias lá em Campinas, tentando ajudar o casal de velhos a superar esses dias difíceis. Depois da noite em que seu Zezé falecera, a chuva parou de vez; não havia sol, mas já não estava tão frio. Contudo, após pouco mais de duas semanas, tomei o ônibus de volta para casa. Trazia uma dor imensa em meu coração e tive sincera vontade de voltar e morar com os dois amigos lá da cidade grande.

Em casa, novas surpresas desagradáveis. Minha irmã estava bem doente, doença da alma, estava igual ao meu pai em seus últimos dias. Passava o tempo todo sozinha em casa, sentada no mesmo lugar onde o pai ficara, balançando-se pra frente e pra trás, do mesmo jeito que nosso pai fazia. O seu marido saia cedo e só voltava ao anoitecer; não sei, mesmo porque não perguntei, o que ele fazia. Só dava comida a ela pela manhã e à noite. Ele também quase não falava, respondia com muxoxos e gemidos, mas me contou que teve notícia do meu sobrinho, que ao que parecia estava preso, mas ele não sabia onde.

Não tinha notícias de meu irmão.

Fui à casa de seu Zezé para ver como estava e não poderia ser pior. Tinham invadido a casa; várias famílias moravam dentro dela e no quintal. Não sobrara nada da horta e muito menos das galinhas. A vitrola, o rádio e os móveis quase todos tinham desaparecido; ficara um sofá velho onde alguém estava dormindo, duas camas e um armário. O fogão estava funcionando, mas de modo bem precário. Ia ser muito complicado fazer o que seu Zezé tinha me solicitado.

Fui procurar o Jonathan que tinha sido pago para cuidar das coisas e ele me disse que não teve como segurar os invasores, que havia sido agredido e até machucado pela turba que resolveu tomar conta da casa. Paciência, não havia como remediar.

Interessante foi o que notei algumas noites depois: a luz em frente à casa do professor estava apagada.

Alguns dias após meu retorno, o meu amigo Mai apareceu lá em casa. Fiquei bastante surpreso com sua visita e ainda mais quando ele me pediu se poderia ficar algum tempo morando conosco. Surpresa em cima de surpresa. Por que – perguntei – o que estava acontecendo?

Ele me contou que a coisa estava meio complicada. Teve que sair do banco, porque houvera mudanças com algumas revoltas que estavam acontecendo. Parece que começara em Belo Horizonte e Fortaleza e logo após em Porto Alegre, mas estava se espalhando e como ele era diretor da Juventude, pensava em ficar fora de circulação por algum tempo. Ou seja, na hora H pipocava e se escondia. Acreditei nele, porque ele sempre sabia das coisas, mas disse que não poderia ajudá-lo, mesmo porque minha irmã estava naquela situação, eu não poderia contar com meu cunhado e sei lá que mais. Certo é que não queria relacionamento com pessoas ligadas àquele governo corrupto. Claro que não disse isso a ele. Por outro lado, pensei que talvez ele tivesse pisado na bola, feito alguma coisa errada e, agora, estaria fugindo da polícia. Mesmo assim fiquei animado, pois, enfim, o que estavam dizendo lá em Campinas poderia ser verdade e meu velho professor tinha razão, mais uma vez. Haveria algum futuro ou pelo menos eu poderia sonhar com isso.

Nas ruas, as pessoas estavam diferentes, ou então era eu que estava vendo as coisas e as pessoas de um modo diferente. Mas ninguém queria falar nada a respeito desses boatos; o medo persistia acima de tudo. Por mais que eu procurasse, não encontrava notícia certa e era muito difícil acreditar nas informações das redes ou do rádio. Passei alguns dias pensando no que fazer. Tinha vontade der ir embora, fazer alguma coisa de útil, mas não tinha nem ideia do que poderia ser.

Depois de alguns dias, lembrei-me de uma coisa que seu Zezé sempre falava: quem sabe faz a hora!

Então resolvi que deveria mesmo partir, buscar minha vida em algum lugar, fazer mesmo qualquer coisa que eu pudesse em prol das pessoas que sofriam tanto. Ia procurar o pessoal que se revoltava, estava disposto a lutar para mudar as coisas, ainda que isso me trouxesse sofrimento, mesmo que fosse preso, torturado, mesmo que morresse, valeria a pena, afinal meu futuro dependia de mim e eu queria um futuro sem inverno, não queria continuar a ser escravo de ninguém. Estava decidido.

Juntei as poucas coisas que eu tinha e coloquei em uma mochila que encontrei; acho que era de meu sobrinho. Não tinha como arranjar dinheiro, mas iria assim mesmo. Se nada desse certo, seria mais um andarilho entre outros milhões. O importante era sair pelo mundo e ajudar na luta por uma vida digna.

Foi muito difícil me despedir de minha irmã. Ela não entendia o que eu falava, parece que tinha mesmo perdido a consciência de tudo, vivia um mundo à parte. Meu cunhado resmungou que eu estava abandonando minha irmã e que ia sobrar tudo para ele, mas não me fez mudar de ideia. Mesmo com o coração partido, eu iria embora.

Tinha poucos amigos a quem deveria visitar para me despedir, mesmo assim não procurei todos. A maioria dos que eu visitei não teceu qualquer comentário, o que fez até eu me arrepender de tê-los procurado. Apenas um me desejou boa sorte, mas, visivelmente, não entendia o que eu estava fazendo. Nessas horas, aumentava a saudade do meu mestre.

Não me lembro em que dia saí, mas que, com certeza, o sol brilhava em um céu muito azul, quase sem nuvens e que estava bem quente, como um dia de verão que eu nunca conhecera.

Tive a estranha sensação de que poderíamos ter novamente os dias de sol...