Segundo Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Seu Zezé criava galinhas; muitos na nossa cidade as criavam. Mas era dentro de casa, em um quartinho. Ocasionalmente, Seu Zezé as soltava para pastar no quintal, isso quando fazia um pouco de sol. Porém ele ficava lá, pastoreando, cuidando, pois que senão eram roubadas. Havia muita fome e pouco dinheiro nesses tempos, mas também havia muito pouco o que comprar e então se roubava. Todos roubavam ou apanhavam o que fosse possível, o que poderia servir de alimento ou pudesse render algum trocado. Eu não criava galinhas, mas tinha uma horta, que aprendi a cuidar com minha mãe e, já que havia muitos anos não conseguia emprego, tinha tempo de cuidar de meus canteiros. A produção era pouca: pouco sol e muita chuva. Todos que plantavam alguma coisa tinham a mesma queixa: o chão vivia encharcado. Roubavam das hortas também.

E os roubos não eram praticados apenas pelos bandidos que dominavam as ruas. Todo mundo roubava alguma coisa quando podia. Durante o dia, as ruas ficavam cheias de drogados ou bêbados, rodeados por traficantes e desocupados. À noite, não se podia sair de casa: as gangues tomavam conta da cidade. Brigavam entre si e matavam-se, mas agrediam também pessoas de bem, jovens, velhos, mulheres, crianças. Estupravam, roubavam até as roupas e, muitas vezes, agrediam sem qualquer motivo. Era muito perigoso! Eu era dos poucos que se arriscavam a sair à noite, mas não saía muito tarde, menos ainda nas madrugadas. Nem a polícia andava à noite, mesmo porque dificilmente prendia traficantes, bandidos, ou ainda mais raro algum membro de gangue. Os policiais prendiam e batiam muito nos pais de família, trabalhadores ou líderes comunitários. Professores, padres ou qualquer outra pessoa que pudesse ter alguma credibilidade e influência junto ao povo eram perseguidos. O governo tinha medo das pessoas de bem; ninguém podia ser contra as orientações e a política oficial, não se podia criticar. Havia até prêmios para delatores: cesta básica, guloseimas e dinheiro; então todo mundo delatava todo mundo.

E tudo debaixo da chuva que não cessava, debaixo daquele céu cinzento, daqueles dias escuros, ou no breu da noite.

Nos últimos dias de sua vida, meu pai quase não se manifestava; conversava muito pouco. Ficava o dia inteiro sentado em sua velha poltrona no canto da sala; raramente se levantava e ia dormir tarde da noite, embora acordasse sempre muito cedo. Ficou assim depois que minha mãe morreu. Mas quando houve o golpe, ele já iniciara essa melancolia, que foi se aprofundando com as fraudes eleitorais, com a imposição de candidatos e, por fim, com a instalação da ditadura sem máscara. Ele era muito afeito à política e conhecia alguma coisa a respeito; defendia a democracia e os direitos das pessoas, e, acima de tudo, a liberdade. Acho que era meio socialista. O golpe final foi a morte de minha mãe, após uma gripe, seguida de pneumonia, quando não conseguimos atendimento hospitalar e tivemos muitas dificuldades para encontrar os medicamentos que o médico – dr. Jonas, se não me engano – prescrevera. Meu pai, seu Carlinho como era conhecido, fora bancário. Acredito que por isso é que não foi perseguido pelo novo governo, afinal suas opiniões eram bem conhecidas; ele as defendia com muito entusiasmo.

Minha mãe, Neninha, era um doce de pessoa. Fora professora muitos anos, aposentou-se com muita sorte, porque naqueles tempos tornara-se muito difícil conseguir a aposentadoria, mas ela morreu logo depois. Comungava as ideologias de meu pai, defendia sempre suas ideias, mas não com a mesma veemência. Criou os três filhos com muito amor e carinho. Ela me ensinou a cozinhar e a cuidar das plantinhas. Graças a isso, tive minha hortinha que ajudou muito a nos alimentarmos.

Nós não criávamos galinhas; não tínhamos espaço. Havia muitos anos, minha irmã e meu cunhado moravam conosco, junto com seus dois filhos. Guga, o mais velho, estava no ensino médio, mas vivia nas ruas e, acredito, ligado a alguma gangue. Parecia que se drogava e eu pouco o via. Patri, minha sobrinha, vivia em casa, desistira de escola, mas não fazia muitas coisas, a não ser ficar o dia inteiro no esmarte, quando havia satélite. Senão, ela só comia e dormia. A aposentadoria de meu pai sustentava todo mundo. Meu cunhado, desempregado como eu, às vezes ganhava algum dinheiro, mas nem pergunto como (ele dizia ser representante comercial, o que eu duvido muito). Minha irmã cuidava da casa, um pouco; cozinhava, um pouco; e chorava, muito.

O esmarte era praticamente a única forma de comunicação que tínhamos. Mas era censurado, ou seja, não podíamos acessar tudo que gostaríamos: o conteúdo era controlado pelo governo. Não havia mais a televisão aberta, como disse seu Zezé, apenas através do esmarte, mas a maior parte da programação era paga. Apenas três canais do governo eram grátis. Rádio também só as estações do governo, mas na nossa cidade era quase impossível sintonizar qualquer uma delas. Também não havia mais jornais e revistas. Apenas os que eram publicados com exclusividade pelo governo. Ligações telefônicas de voz eram extremamente caras, proibitivas; e textos ou imagens, além de caros, só eram transmitidos após liberação do chamado Departamento de Segurança Interna, o que tornava temerário enviar alguma mensagem.

Por essas coisas é que nos comunicávamos muito pouco com meu irmão mais velho, o Rui, que morava em Curitiba e trabalhava como segurança de um medalhão, perdão, cidadão. Raramente ele aparecia em nossa casa, mas era até bom, pois ele era um chato: defendia com argumentos muito vazios essa ditadura que se autodenomina “Novo Governo Democrático do Povo” e, embora tivesse dinheiro, não ajudava nada lá em casa, nada. Nem parecia ser filho de seu Carlinho e dona Neninha.

A vida era difícil e sofrida, como falava seu Zezé, mas não será que sempre foi assim? Será que houve algum tempo de fartura e felicidade, de harmonia e liberdade, de respeito e justiça? Sei não... Seu Zezé dizia que sim, meu pai dizia que sim, mas eu ficava sempre na dúvida.

Certa vez, a chuva não parou; foram mais de quinze dias de chuvinha miúda, chuva de molhar bobo, como dizia minha mãe. Só que, quando vivia, ela fazia bolinho de chuva para nós. Saudade? Sim!

Quando o tempo ficava assim, às vezes por meses, as plantas apodreciam, morriam. E eu, que ganhava alguns trocados vendendo legumes, pouca coisa, para ajudar para as despesas, ficava sem dinheiro. Estava difícil arrumar algum bico. Um amigo meu, Marcito, fazia segurança pras lojas e às vezes me arrumava uma boquinha, mas ultimamente não tinha aparecido nada. As lojas, mercados e qualquer comércio eram gradeados, com portinhas estreitas que só ficavam abertas com três ou quatro seguranças, mas mesmo assim eram frequentemente assaltados. Dos bancos, nem se fala! Na nossa cidade, não tínhamos banco, mas em São José, que é grande, sim. Eram de dez a vinte seguranças em cada agência. A vida não era fácil, não!

Seu Zezé contou-me que antigamente as pessoas movimentavam suas contas bancárias através da internet ou mesmo pelo celular (um tipo antigo de telefone móvel, parecido com o esmarte, mas muito primitivo). Depois do golpe, muitos poucos tinham conta em banco e só iam lá para receber os que aposentados ou empregados. Mas esses também eram raros.

Nas épocas de chuva continuada, ficava complicado conseguir comida; os mercados fechavam, porque o pessoal da rua, das favelas (que se estendem por toda a parte) criava muita confusão tentando apanhar alguma coisa. Naquele dia de chuva, comemos só arroz, que por sinal estava bem ruim. Diziam que era importado do Vietnã, ou coisa parecida. Comentavam também que lá havia sol, igual aos Estadosunidos. Lá, nos Estadosunidos, tem sol, primavera e verão; tem fartura e alegria. Pelo menos é o que dizem. Seu Zezé afirmava que os culpados pelo golpe foram os Estadosunidos; eles não queriam que tivéssemos aqui mais um governo progressista, puxado para a esquerda. Por isso Impuseram um governo espúrio, não democrático, que só trabalha para lucro dos rentistas, dos que se enriquecem explorando o trabalho alheio, dos que vivem do lucro do capital, para satisfazer o que se chama de “deus mercado”. Pelo menos é o que ele dizia.