Terceiro Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Um dia perguntei a seu Zezé sobre sua prisão.

- Qual delas? – perguntou.

- Mas o senhor já foi preso mais de uma vez?

- Várias, mas a pior foi a primeira. Nem gosto muito de falar sobre isso, são lembranças ruins. Me acusaram de estar difamando o governo e ensinando doutrinas comunistas em minhas aulas. Eu ensinava história e, pelo menos em meu modo de entender, deveria sempre mostrar as verdades históricas. E o que é a verdade, eu mesmo me questionava e ainda me pergunto até hoje. É muito difícil e complicado definir o que é verdade; a história quase sempre é contada pelo vencedor ou por quem esteja no poder. A história é dinâmica, nunca estará definitivamente escrita, sempre sofrerá modificações. Porém me via na obrigação de ensinar de forma correta, de abranger todos os temas, de mostrar como a humanidade realmente se modifica em seu caminho, afinal nós só aprendemos e enxergamos melhor as coisas através dos estudos e dos pensamentos dos grandes estudiosos. Então eu tinha que citá-los, dar a cada um seu valor, para que os alunos tivessem a oportunidade de aprender e desenvolver seu próprio pensamento. Mas, para o novo governo, falar em Marx, Kant, Rousseau era crime. Alguém me denunciou, ou não, sei lá, mas vieram à minha casa e me prenderam sem me dar tempo sequer de trocar de roupa, na frente de minha mulher e meus filhos se revoltaram, gritaram, choraram, em vão. Eram surdos: macacos doutrinados, condicionados, idiotas cumprindo ordens. Sempre foi assim...

- O senhor sofreu muito? Digo, foi muito ruim? Trataram mal o senhor?

- Hehe! Cadeia nunca é bom; nunca ouvi dizer que alguém tenha gostado da cadeia. Bom, hoje existem algumas pessoas que até gostam; têm casa e comida... Da primeira vez, começaram me tratando até bem, me chamavam de senhor, faziam perguntas sobre minha identidade, sobre minha família, sobre meu trabalho. Colocaram-me numa cela com pouca gente, tinha pia, cama com colchão, toalha e sabonete, até comida tragável. Depois, foi piorando dia a dia, quando começaram a me perguntar sobre minha atividade antigoverno, sobre eu ser terrorista, querer derrubar o governo e destruir a democracia, logo eu que passei a vida ensinando e defendendo as liberdades democráticas. Aí começaram safanões, tapas na cabeça, rasparam meu cabelo, colocaram-me em solitária, deram-se banhos frios, deixaram-me sem comida, mas ainda era suportável. Pior foi quando começaram os choques elétricos, as surras com borracha, o pau-de-arara. Não foi fácil, não! E não adiantava eu tentar explicar, tentar argumentar, tentar mostrar que as acusações eram infundadas; nada resolvia minha situação, nada fazia com que diminuíssem as torturas; idiotas condicionados cumprindo ordens... Foram alguns meses assim. Aos poucos, foram me esquecendo, talvez porque eram muitos presos que chegavam a cada dia e eles precisavam cuidar de todos, punir, torturar gratuitamente a todos. Enfim, fiquei lá por mais de dois anos, nunca fui julgado, nunca recebi visitas, nunca pude dar um telefonema; só depois de dois anos é que tive um encontro com um advogado que minha família havia contratado, uma vez só. Depois de alguns meses, fui libertado, sem dinheiro, sem que avisassem meus familiares. Tive que pedir esmola para poder voltar para casa. Sempre foi assim...

- Mas o senhor não participava de nenhum movimento para derrubar o governo, né mesmo? O senhor não fez ou participou de manifestações ou movimentos contra o impeachment, contra o golpe, ou fez?

- Meu filho, a única coisa que fiz na vida foi dar aula e ser honesto... Quase não pratiquei esportes, quase não participei da sociedade, nem religioso fui. Não fui nada nesta vida, não produzi nada, não lutei por nada; só estudei, estudei, estudei... E procurei ensinar, da melhor maneira possível, dar a meus alunos a oportunidade de aprender a pensar, de crescer na vida. Não valeu muito. Na verdade não valeu nada, não me trouxe nada de bom. É sempre assim: os gatunos crescem, ficam ricos, viram deputados, governadores, juízes, ministros, presidentes, enquanto aqueles que são honestos vivem na penúria, no medo, escondidos, escravos do trabalho e dos poderosos, sem direito a nada, a não ser a revolta silenciosa. Nós lutamos e somos presos por cometer o crime de pensar, enquanto os bandidos se tornam reis da rua, sem nunca se preocuparem com qualquer punição. Tirar o dinheirinho parco de uma velhinha, bater em um idoso até a morte só por prazer, estuprar uma criança que está a caminho da escola, destruir o patrimônio público, nada disso é pecado hoje, nada disso é punido. Só mesmo o cidadão honesto é que sofre punição, trancado em casa, sob grades e cadeados, para tentar sobreviver. Fui preso três vezes por falar essas coisas, por dizer que esse tal de “Novo Governo Democrático do Povo” é uma balela, um embuste para justificar a quadrilha que tomou conta do país e criou essa ditadura terrível para enriquecer nossos algozes. Por dizer que esse inverno sem fim é culpa desse governo de bandidos!...

-Quando o senhor diz ‘lutamos’, o senhor quer dizer com palavras, com ideias? O senhor não foi lutar nas ruas, né?

- Ora, aqui, nesta cidade? Aqui as pessoas sempre foram alienadas, doutrinadas, medrosas. Aqui sempre defenderam os poderosos, sempre votaram nos ricos e malandros, ou em pastores e bispos protestantes. Até hoje ainda encontramos quem defenda esse governo ditatorial e absurdo. Bem que eu queria e até me arrependo de não ter ido para uma cidade maior, a fim de participar das manifestações. Pelo menos estaria com a consciência tranquila. Mas, ao fim, não adiantaria muito... Um a mais, um a menos não mudaria muito as coisas. Os donos do poder sempre ganham... Mas, no fim, ganhei porrada do mesmo jeito!

- Eu imaginei, acho que ainda penso assim, que minha obrigação seria ensinar corretamente, mostrar os fatos, a história, de maneira correta, o mais correto possível e ainda procurar desenvolver em meus alunos a capacidade de pensar, de entender melhor as coisas. Não poderia ensinar coisas enviesadas, uma história fictícia, só para agradar o governo, fosse ele qual fosse. Não fui para as ruas me manifestar e me arrependo. Meu filho Henrique foi, quis participar da luta, tentou ser ativo para mudar esse governo, acabou preso e sumiu; nunca mais soubemos dele, nunca mais conseguimos localizar seu paradeiro. Só ficou a lembrança, a saudade. Às vezes, penso que o culpado fui eu que coloquei ideias em sua cabeça, que ensinei a necessidade de defender nossos direitos, nossa liberdade, nossa dignidade. Ensinei-o a ser altivo, a não abaixar a cabeça. Mas também penso que estou me punindo à toa; todos nós iremos pro mesmo matadouro. Claro, com a exceção dos vendidos, dos puxa-sacos, dos safados corruptos e ladrões. Você não lembra, mas o Riobaldo, personagem de um romance de Guimarães Rosa, dizia sempre assim: viver é muito perigoso... Acho que ele tinha razão...

- É, parece que estava mesmo certo, que tinha razão... Mas o senhor não deve se culpar. A culpa não é nossa, nem sua nem minha, menos ainda das pessoas simples e honestas. Nunca tivemos condições de procurar uma vida melhor e, sempre que lutamos por mudanças, foi em vão. O senhor está certo em ensinar a verdade e sempre será nosso grande mestre...

- Bobagem! Nunca fui mestre. Sou um professorzinho de quinta categoria...