Quarto Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

A chuva continuou por muitos dias. Choveu mais de três meses, sem interrupção. Tudo ficou mofado, apodrecendo, quase não havia mais comida. Os mercados estavam bem vazios, mas também ninguém tinha dinheiro pra comprar! A pensão de meu pai não veio naquele mês e a maioria das pessoas não a recebeu. Quase não havia trabalho com tanta chuva; quase tudo ficou parado.

O esmarte ficou fora do ar por uns quinze dias; minha sobrinha ficou deprimida, roendo as unhas, andando como um zumbi dentro de casa, só resmungando e brigando por qualquer coisa. Ficamos sem notícias, mas o boato era de que o país inteiro estava assim e que no nordeste morriam pessoas de frio, tal como acontece aqui, no sul. Alguns que tinham dinheiro haviam fugido para lá, quando esse inverno sem fim começou. Entraram pelo cano: não adiantou nada. O governo afirmava que esse inverno era culpa da presidenta deposta e de seu mentor, que fora presidente antes dela. Mas eu pensava: depois de tantos anos, esses que se diziam salvadores da pátria, novo governo democrático e se declaravam altamente competentes e inteligentes, já não teriam resolvido isso?

Certa vez, ouvi no rádio que a culpa de tanto frio e umidade era da poluição da estratosfera por gases gerados pela China e pela Rússia. Outra vez, disseram que o inverno era responsabilidade de países vizinhos, muito atrasados economicamente com fábricas e técnicas agrícolas antigas e rústicas. Sempre uma desculpa nova, mas virava e mexia acusavam a ex-presidenta e seu partido de terem causado tal mudança climática. Tudo era culpa deles! Nunca acreditei. Muitos aceitavam essa versão, mas sofríamos todos do mesmo jeito, embora vivessem pregando, conforme a propaganda do governo, que as coisas estavam melhorando. Balela! Não havia nenhuma melhora; até energia elétrica faltava cada dia mais, sem falar das estradas e ruas quase intransitáveis, da falta de escola, de médicos, de medicamentos, de combustíveis, de roupas e cobertores, de comida.

Seu Zezé dizia que era castigo, por sermos tolos e covardes. Acredito que ele estivesse certo.

No mês seguinte, pelo menos eu ganhei um dinheirinho. O prefeito contratou uma turma para abrir valetas, a fim de drenar uma parte da cidade que estava virando brejo. A favela da Esperança estava praticamente debaixo d’água; ela fica numa baixada. Certo que a cidade toda é quase uma única favela, mas aquela estava mesmo em situação ruim. Como as máquinas estavam quase todas quebradas, tivemos que abrir as valetas no muque, com pás e picaretas, como era antigamente, segundo meu pai comentou. Fiquei feliz e triste ao mesmo tempo, porque alguns morreram nesse trabalho. Seu Quinzinho, velho conhecido nosso, foi um dos que não aguentou. Acho que foi de fraqueza, pois ele não tinha nada para comer, ou então foi de frio. Mas fiquei triste, assim como meu pai e seu Zezé, que eram amigos de seu Quinzinho. E o pior é que era bem difícil enterrar os mortos: quando se cavava a terra, a cova imediatamente se enchia de água e não se vencia esvaziá-la. Ouvi dizer de gente enterrada dentro d’água.

O melhor é que o prefeito não enrolou, pagou direitinho. Levei até um pacote de arroz chinês para o seu Zezé. Coitado, ele vivia sozinho e também não recebera sua pensão. A pensão paga aos velhos é muito pouca, mal dá para viver. Meu pai recebia a meia, que mal pagava a luz e uma cesta básica. Seu Zezé recebia só a terça; imagine como é pouco. O governo explicava que, se pagasse mais, as pessoas gastariam em supérfluos e o país quebraria. Parece até que estão votando um projeto de reforma da previdência, para dificultar e limitar ainda mais o valor das aposentadorias e diminuir o valor das pensões. Os problemas do país são todos por culpa do déficit da previdência, ou pelo menos é o que o governo diz. E tudo por culpa dos governos passados, nunca por causa do atual governo, que faz tudo para corrigir os erros anteriores e tirar o país da crise. O que, de acordo com a propaganda intensa que se faz, está sendo alcançado. As melhoras virão, embora lentamente, e os sacrifícios são necessários para que no futuro todos tenham uma vida melhor. É preciso salvar a nação. É o que o governo sempre diz, numa lavagem cerebral contínua.

Tinha a impressão de que essa crise era eterna, pelo menos para nós aqui neste país do sul. Afinal meu pai me contou que, quando eu nasci, vivíamos uma crise econômica e política sem precedentes na história, segundo o novo governo, que havia tomado o poder através de um golpe, organizado justamente pelos mais ricos: industriais, banqueiros, investidores em bolsas de valores, em títulos do governo ou outros papeis sem valor. Até hoje não entendo isso direito, como não entendo o que são ou como funcionavam jornais, revistas e televisão, que naquele tempo pertenciam a particulares, uns tais de Marinios, ou coisa parecida. Mas ainda me lembro um pouco da televisão aberta, que não precisava pagar.

Alguns ficaram até otimistas naqueles dias, porque notícias vindas não se sabem de onde – mas que alguns juram que ouviram – informaram que os Estadosunidos autorizaram nosso país a explorar novamente o petróleo. A princípio, diziam, num volume limitado, mas o governo afirmava que isso traria novos investimentos que iriam gerar empregos e ativar a economia, com lucros na exportação. Mas, sabíamos que o petróleo estava valendo muito pouco. Nos países líderes, ele quase não é mais usado como combustível. Neles, segundo me contaram, os aeroautos são movidos a hidrogênio; nem poluem mais. Aqui os caminhões e ônibus ainda usam petróleo. Carros, temos poucos; a maioria está abandonada pelas ruas e estradas. Ferrugem, temos muita e vender a sucata, o ferro velho é que é impossível: não há quem queira comprar. Parece que nossas siderúrgicas estão meio paradas, mas não sei se é verdade.

Eu tenho um amigo em São José, Maiko Makswell, que nós chamamos de Mai. Ele possuía revistas do governo; era bem informado e trabalhava num banco. Lá dentro do banco, eles sabiam de tudo ou, pelo menos, era o que meu amigo dizia. Além disso, ele fazia parte dos Batalhões da Juventude pela Defesa da Nação e da Democracia, os chamados DD. Eu até acreditava nas notícias que ele me dava, afinal esse pessoal das DD são defensores do governo e por isso devem saber muitas coisas, além de terem uma vida muito boa, quer dizer, melhor do que as nossas. Esse negócio das siderúrgicas, Maiko afirmava ser verdade; do petróleo, ele não sabia direito. Mas foi ele quem me disse que o petróleo não estava valendo muito. Seu preço caíra havia alguns anos, e o petróleo não estaria sendo vendido nem a um terço do que valera uns quinze ou vinte anos atrás. Acredito nele. O governo faz muita propaganda, sempre mentido, mas existem pessoas que sabem das coisas, que têm informações melhores.

Quando tomaram o poder garantiram que manteriam a democracia, mas, como dizia seu Zezé, só se for democracia para asnos. Segundo ele, e acho que está certo, ou melhor, tenho certeza de que está, as eleições são fraudadas e só são eleitos os que o governo permite. Aqui mesmo, quando tivemos eleições para prefeito, o que foi eleito era odiado pelo povo; não conheço ninguém que tenha votado nele, mas virou prefeito e está no cargo até hoje. Sabe-se lá quando é que haverá novas eleições. O governo marca eleições quando lhe dá na telha e são eles que escolhem os candidatos, impugnando qualquer candidatura que não lhes agrade. Eu não sei muitas coisas, mas também não sou burro. Tá muito na cara.

A próxima vez em que eu for a São José, vou perguntar ao Mai sobre essa história do petróleo. Se for mesmo verdade, é possível que as coisas melhorem para todo mundo. Ao mesmo tempo, penso que os graúdos ficarão com tudo, não sobrará nada para o povo, como sempre tem sido. Os que têm cada vez mais moram na Flórida ou na Europa, vivem vida diferente, são bonitos, comem comida da melhor qualidade e ficarão com tudo. Enquanto nós, que vivemos nesse inverno sem fim, comendo teiú com farinha e mofando junto com as plantas, corremos o risco de não ver nada melhorar.

Lembrei do que seu Zezé me disse: viver é muito perigoso...

Bom, os congregação, quando não estão brigando com os assembleias ou com os islã, dizem que o deus está punindo, como fez no dilúvio, porque o povo é ímpio. Mas no fundo todos de qualquer religião dizem o mesmo. Não entendo nada disso, por isso nunca dei palpite, só conto o que ouço e vejo. Mas os seguidores de todas essas igrejas apoiavam o governo. Meu pai dizia que era porque o novo governo acabara com a televisão. Pode ser, mas seu Zezé explicava que, nos tempos do golpe, os deputados de religião já apoiavam os golpistas, que depois constituíram esse governo e, portanto, sempre defenderam essa situação. Era isso que eles queriam. Seu Zezé afirmava ainda que tais políticos só querem poder e dinheiro e dizem-se religiosos só para alcançar esses objetivos. Deve ser uma mistura disso tudo

Contudo, seja por culpa da presidenta, do partido dela ou do ex-presidente, seja por culpa do deus, dos Estadosunidos, da China, do novo governo democrático ou seja lá de quem for, viver tornou-se mesmo muito difícil e muito perigoso.

Um dia, roubaram o pouco de dinheiro que meu cunhado ganhara não sei onde. E ainda bateram nele; machucou bastante. Talvez seja por isso que meu pai piorou. Ficou cada vez mais deprimido, melancólico. Praticamente não conversava e adquiriu a mania de ficar balançando o corpo pra frente e pra trás sem parar. Ficava assim o dia inteiro e quase não comia.