Quinto Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Ficamos três dias sem chuva. Até saiu um solzinho bem mequetrefe, bem fraquinho, mas animou um pouco a vida. O frio, porém, continuou, não diminuiu nada. Fui à casa de seu Zezé, fazia alguns dias que eu não saía de casa e estava com saudade dele.

A porta estava trancada, bati sem resposta, então dei a volta para o quintal e lá estava ele, já trabalhando em sua horta. Eu nem tinha me lembrado de minha horta ainda e ele já estava trabalhando na dele! Ele sempre me dava alguma lição, eu é que não aprendia nunca.

Havia outro senhor que o estava ajudando. A princípio não o reconheci, mas depois me lembrei de que já o vira. Era o irmão mais novo de seu Zezé.

- Boa tarde – disse quando os avistei.

- Olá, seja bem vindo – me respondeu seu Zezé, apoiando-se por um instante no cabo da enxada.

- Venha conhecer meu irmão, o Antônio, mas pode chamá-lo de Nico que é como todo mundo o conhece.

- Muito prazer, seu Antônio – respondi.

- Ora, eu é que fico honrado em conhecer o grande amigo de meu irmão – disse o Nico, ao mesmo tempo em que ria um riso franco e me estendia a mão.

- Pode me chamar de Nico, estou mais acostumado.

- Meu irmão é advogado e professor também, só que professor universitário. Era professor de direito, o maior jurista desse país e, agora, está aposentado.

Seu Zezé já tinha voltado ao trabalho enquanto conversava e deu um sorriso bem malicioso ao descrever os títulos do irmão. Este também sorriu e complementou:

- Aposentado não, cassado!

- Bem, cassado na verdade, e sem direito a qualquer pensão, continuou seu Zezé. Ele é mais novo que eu e mais atirado. Lutou contra o golpe, defendeu nos tribunais alguns acusados pelo novo governo, participou de manifestações na rua, falou contra o novo governo em todo lugar, na universidade, nos jornais e na TV, escreveu e assinou manifestos, enfim, fez tudo o que pôde e acabou cassado. Mas não foi preso como eu. Hehe!

- Fui preso sim! Não se lembra?

- Preso nada, foi interrogado, ‘prestar esclarecimentos’, essas coisas assim. Afinal, você era professor e jurista afamado, muitos livros publicados, renome internacional...

- É, tive sorte...

Na verdade, esse diálogo transcorria em clima de absoluta camaradagem, entre risadas e troças. Coisa de irmãos. Mostrava como realmente eram amigos e o quanto eles se amavam.

Nessa altura os trabalhos foram suspensos; o dia começava a escurecer e o frio aumentava; melhor conversar dentro da casa e seu Zezé já oferecia um gole de uma cachaça muito boa que ele ganhava de um antigo conhecido e que ele não revelava nunca quem seria; nem a mim ele dizia quem era. Essa cachaça, ele só servia em dias especiais e a presença do irmão era sem dúvida muito especial. Seu Nico acendeu um cigarro, o que me surpreendeu; ele não tinha jeito de fumante. E que cigarro fedido!

- O senhor fez boa viagem? – perguntei.

- Meio complicada. As estradas estão bem ruins e o ônibus foi só até São José. De lá pra cá tive que arrumar carona, o que também não foi fácil conseguir. Mas valeu a pena; estava com saudades do mano.

- E o que o senhor faz hoje, quero dizer, no que o senhor trabalha?

- Ele é camelô – disse seu Zezé, morrendo de rir.

- É verdade. Vendo doce e mais umas bugigangas pelas ruas e nas casas. É meio perigoso, pois a cidade é muito violenta, mas mudo meu roteiro todo dia e, quando não me roubam, sempre sobra algum para viver.

- Deve ganhar mais do que nós – tripudiou seu Zezé.

- Não, dá só pra viver. As coisas estão muito caras lá em Campinas; estou até pensando em mudar para uma cidade menor, mas a mulher tem medo. Fazer o quê? Ela é muito nervosa, tem diabetes, pressão alta, sei lá que mais e tem medo de não haver médico e medicamentos em uma cidade menor. Depois que nossa filha desapareceu, ela foi ficando cada vez mais doente, nervosa, deprimida... Mas me parece que hoje em dia quase todo mundo é assim. Às vezes eu penso que, quando lutávamos contra esse pessoal neoliberal, estávamos prevendo essa merda que virou a nossa vida. Fico revoltado, puto da vida, querendo encontrar um jeito de reiniciar a luta, querendo mostrar às pessoas que nós podemos nos mexer e mudar tudo, nem que seja na porrada! Mas depois, olhando pra esse velho impotente que me tornei, acabo por encher a cara e fico só chorando, engolindo minha raiva e minha revolta.

Confesso que esse discurso me pegou de surpresa. Seu Nico era muito mais veemente que seu irmão, muito mais revoltado, impositivo, talvez por sua experiência de advogado. Mas também me entusiasmou, animando-me a perguntar mais. Contudo a noite já estava avançando e, como era de se esperar, não havia energia; estávamos conversando à luz de lampião. Seu Zezé já estava preparando o jantar e o aroma era bem apetitoso, mas não eu poderia ficar mais. Assim me levantei e iniciei as despedidas, mas meu velho professor não permitiu.

- De jeito nenhum – retrucou ao mesmo tempo em que me empurrava gentilmente de volta à cadeira.

- Você vai jantar conosco e não se preocupe, tenho um colchão e você dorme aqui; amanhã você vai.

- Não, seu Zezé. Não quero abusar. Amanhã eu volto; sei como é duro arrumar comida, e os senhores precisam conversar, colocar em dia as notícias... Amanhã eu volto.

- Pode ficar – disse seu Nico. Tem comida bastante e é bom termos companhia, o papo rende mais. É um bom estímulo para relembrarmos as coisas, para chorar as mágoas e rir das bobagens. Fica sim!

- Bom, obrigado, eu estava mesmo com vontade de ficar. Tenho muita curiosidade sobre as coisas do passado, queria mesmo entender como é que a nossa vida veio a ficar tão ruim, tão complicada. Pelo que meu pai conta já houve tempo melhor, né não seu Zezé?

- Houve sim... Tempo em que havia sol... Na verdade havia estações: primavera, verão... Era bem bom...

- Bom? Bondade sua – retrucou o seu Nico. Era muito bom... No verão era calor, céu azul, nuvens brancas que formavam figuras, lembra Zezé? Ficávamos adivinhando as figuras... A gente andava só de calção, sem camisa... Na primavera era tudo florido, o mato ficava bem verdinho, era tudo tão bonito... E mesmo o inverno não era como agora; não fazia tanto frio e nem chovia tanto. Mãe nos chamava mais cedo para o banho e, logo depois, aquela sopa maravilhosa que só ela sabia fazer... Depois ficávamos na sala vendo televisão e fazendo bagunça... Tenho saudade!

- Sinto saudade também. Até das broncas do pai! Mesmo dos tapas... Hoje até parece que não doíam nada, hehehe...

- Olha Zezé, não sei se nós somos ou fomos bobos. Quem aceitou e aceita os desmandos, quem se vende barato, os que se corrompem e se prostituem, os filhos da puta em geral, sempre se deram bem. Essa cambada de safados que vendeu... Opa! Vendeu não, deu nosso país de graça para os mais espertos. Eles estão aí, mandando em nós, fodendo a vida de todo mundo, acabando com qualquer resquício de direitos que por ventura imaginamos possuir. Essa gente está cada vez mais rica, vivendo em verdadeiros paraísos, bebendo champanhe e uísque, comendo carne à farta... Ó Zezé, o mundo é dos espertos, ou dos tolos, ainda não sei bem... Na próxima vez, vou pedir para nascer safado, filho da puta; vou pedir para nascer sem escrúpulos, sem moral, sem essa coisa de se preocupar com os outros... Os outros que se fodam: é cada um por si e deus para todos!

- Ê Nico, não exagere! É bom ser assim como nós, conscientes, respeitadores da lei e das pessoas. Foi assim que nossa mãe e nosso pai nos ensinaram e acho que está certo. De que adianta ser rico? Que adianta ter comida e bebida boa, piscina sob sol escaldante, carro, iate, avião? Todo mundo vai morrer um dia... E, às vezes, uma galinha bem feita, bem temperadinha, é bem melhor que um filé ou um camarão...

- Eu nunca comi camarão – meti minha colher na conversa, totalmente fora de propósito. Paciência, minha estultice é quase sem fim.

- É bom, muito gostoso – me explicou seu Nico e prosseguiu.

- Eu gosto, ou melhor, gostava de coisas boas. Gostava de um vinho do porto, champanhe, de preferência francês, hehehe, quer dizer, champanhe só pode ser francês...

- Ê Nico...

- Hehe. Mas o que quero dizer é que se eu gosto, por que os outros não podem querer? Se eu tenho direitos, por que os outros não podem ter? Por que alguns são privilegiados, podem ter tudo, podem satisfazer todos os seus gostos e desejos, enquanto a outros só resta sofrer, trabalhar, produzir, sobreviver? Por que os seres humanos não buscam a justiça, não se organizam de tal sorte que todos possam ser felizes e, de alguma forma, atravessem sua existência nessa vida de forma digna e satisfatória? Aí Zezé, não é isso?

- Por aí! Mas são pensamentos antiquados! A vida nunca se preocupou com justiça; justiça não existe e nunca existiu; é uma quimera sem pé nem cabeça. O mundo sempre foi dos mais espertos. Quem manda no mundo hoje? Os ricos? Os inteligentes? Os malandros e safados? Os ladrões e traficantes? Nada disso; o que manda no mundo são as máquinas inteligentes, são os algoritmos bem desenvolvidos e bem aplicados... Até a elite que manda em nosso país, ou mesmo no mundo, está presa à inteligência artificial e ao que ela determina, em função de sua imensa capacidade de adquirir informações e tomar decisões ao fazer um enorme cruzamento de dados... Aí, o ser humano, qualquer outro ser vivo, todo nosso ambiente, toda a ecologia não têm valor nenhum. Nós é que estamos por fora... Somos sonhadores... Talvez vivamos no passado e sonhamos com vida digna. São somente sonhos...

- Haja paciência Zezé. Quando deram o golpe e acabaram com a frágil democracia que tínhamos, não havia ainda nada disso. Não havia essa maravilhosa inteligência artificial que supera a do ser humano, não havia ainda essas máquinas superinteligentes e não havia essa porra desse inverno que não acaba nunca! Havia, sim, algum interesse pelas pessoas, pelo meio ambiente, pela vida! Pouco, é certo, mas existia alguma coisa nesse sentido...

Enquanto o papo rolava e a garrafa de cachaça acabava, o cheirinho da comida ativava as lombrigas; pelo menos as minhas. A fome apertava e a escuridão aumentava junto. Repentinamente batidas na porta, como se quisessem arrancar as dobradiças, enquanto gritavam do lado de fora: é a polícia, abra logo! Era mesmo a polícia; podíamos ver as luzes da viatura colorindo a noite de vermelho e azul. Fomos abrir a porta. Os policiais não eram nossos conhecidos.

- Pois não? – disse seu Zezé.

- O senhor é o professor? – perguntou o que comandava.

- Sim, o que está acontecendo?

-Nada, só estamos investigando. O senhor tem visitas, né? Parece que tem festa.

Enquanto falava foi adentrando a casa, seguido de outros dois policiais. Olhava tudo, cheirava, batia com a mão na arma pendurada na cintura.

- Quantas pessoas têm aqui?

- Só nós três, estamos preparando algo para comer. Estão servidos?

- Não, hoje não. Ô Igor – virou-se para um soldado. Vai ver se tem mais alguém, dá uma geral na casa.

E lá se foi o tal do Igor, acompanhado de mais um meganha, revistar a casa, enquanto nós ficamos esperando, sem ter muito que falar. Mas seu Zezé era experiente. Com seu jeito educado perguntou:

- Aconteceu algum problema, sargento?

- Não, só rotina; pareceu que estava havendo uma festa aqui, mas tô achando que não!

- Ei sargento, não tem ninguém, só galinha. Hahaha! Tá cheio de galinha aqui – gritou o soldado, voltando à sala.

- Galinha? – perguntou o sargento, virando-se para seu Zezé.

- É! Eu crio algumas...

- Aqui dentro?

- Pois é. Se as deixo lá fora, roubam tudo. Leve uma, dá um bom jantar...

- Tá. Vou aceitar. Ô Igor, pega uma bem gorda aí, ajuda lá ô Dudu.

E foi assim: escolheram não uma, mas três galinhas e as levaram; nem se deram ao trabalho de agradecer. Roubo oficial! Os dias eram assim.

- Vê – começou o seu Nico, quando trancamos novamente a porta. Não se respeita nada nem ninguém. Quem será que denunciou que você tinha visita?

- Ninguém. Viram movimento, estão sempre de olho em mim; acho que pensam que vou fazer guerrilha contra o governo, que vou organizar um grupo de resistência ou sei lá o quê. Desde que sai da cadeia é assim. A luz em frente de casa é uma das poucas que ficam acesas à noite. Hoje, por incrível que pareça, está apagada. Enfim, três galinhas a menos, mas nem foi tão caro. Pior é se voltarem ou mandarem outros, aí vai mais galinha e ovo e não sei que mais.

- Lá em Campinas, não me amolam muito; há alguns meses não me convocam à delegacia. Parece que estão me esquecendo.

Acendeu outro cigarro, ao que seu Zezé resmungou:

- Nico, você precisa parar de fumar; que trem fedido! Onde você arruma isso?

- Por aí; eu mesmo vendo alguns, às vezes. Vêm do Paraguai, os piores; da Argentina, uns que são melhorzinhos, mas mais caros. Americano ou europeu, ha, só pros ricos...

- A maioria do pessoal daqui fuma erva ou cigarro feito à mão, com um fumo preto, mais fedido do que este – disse eu, me intrometendo outra vez na conversa.

- Bem – disse seu Nico – quando tínhamos produção de fumo e cigarros no nosso país, eles eram melhores, mas hoje parece que não há mais fábricas aqui. Primeiro, proibiram o cigarro; a maconha, não; depois autorizaram a importação. Quem entende? Cigarro fabricado aqui não pode, cigarro que vem da puta que o pariu pode! Ô país de merda! Tá certo, Zezé, que hoje em dia as pessoas não têm mais nenhum valor, mas tudo tem limite! As máquinas podem ser mais inteligentes do que nós, mas porra, elas não fumam! Então por que nós temos que fumar essas merdas?

E o jantar foi servido. Um picadinho de carne com batata, arroz e feijão; uma delícia. Seu Zezé conseguia cada coisa! A conversa continuava.

- Zezé, meu jovem, os tempos mudaram porque as pessoas não cuidaram de si mesmas. As pessoas só pensam no imediato, em aproveitar ou sobreviver a cada dia e não se preocupam com o que está à sua volta. Quantas advertências nos foram feitas a respeito do clima, do cuidado que deveríamos ter com o meio ambiente, com a ecologia? Quantos e quantos cientistas, pesquisadores, nos alertaram sobre as mudanças que estavam ocorrendo, tanto com relação ao planeta quanto com relação à sociedade humana? Mesmo quanto ao avanço inconsequente da tecnologia. E quanto às mudanças políticas? Você mesmo, Zezé, nos alertava sempre!

- Verdade, mas era você quem abria meus olhos, que me mostrava as coisas como realmente eram. Quando os poderosos começaram a não respeitar a lei, quando rasgaram a constituição, alegando coisas inexistentes, crimes não praticados pela presidenta, culpando o governo constitucional e democrático daquela época pela crise econômica, que na verdade era mundial, você foi quem se levantou primeiro, que se indignou e tentou mostrar a todos e de todas as formas o real motivo de se dar o golpe, de se acabar com a frágil democracia que então existia. A sua luta, a nossa luta, não obteve os resultados que esperávamos, mas também não foi em vão; esse meu amigo, tão jovem, é a prova do que digo. Infelizmente faltou, e vai faltar cada vez mais, a educação fundamental, a educação capaz de fazer as pessoas pensarem, tirar conclusões, compreenderem um pouco mais sobre o mundo e sobre a humanidade.

- Alguns, Zezé, não viam porque não tinham olhos para enxergar; não entendiam porque não tinham capacidade ou conhecimentos necessários. É muito claro que quem não tinha ou não tem o mínimo conhecimento da história, que nunca ouviu falar em sociologia, que nunca se interessou em conhecer o que é e como funciona a política e a economia, não poderia mesmo entender o que acontecia e o que viria a acontecer. Mas muitos não viam porque não queriam ver; muitos pensavam que ao fim seriam salvos por algum salvador da pátria ou que, obedecendo, seriam recompensados. Muitos pensaram que poderiam vir a fazer parte da elite, da oligarquia dominante, porque o capitalismo permitiria que ficassem ricos. Outros eram apenas beócios que seguiam e acreditavam no que a grande mídia dizia, acreditavam nos telejornais das grandes redes de televisão, aquelas globais, que não por outro motivo defendiam a globalização e a ditadura do mercado; esses podem ser responsabilizados, mesmo que fossem apenas idiotas...

- Idiotas úteis, né Nico? Mesmo porque, embora idiotas, ajudavam a fazer a cabeça das pessoas - acho que não se usa mais falar assim: fazer a cabeça! Que coisa antiga...

- Hehe, antiga mesmo, mas correta... Fazer a cabeça! Era assim mesmo... Belo jantar, Zezé, manda mais uma cachaça: muito boa!

- Seu Zezé, por que não há educação adequada?

- Ora, para os poderosos, os que têm o domínio sobre a maioria, não interessa que as pessoas tenham educação, capacidade de pensar, de entender as coisas. Assim fica muito mais fácil adquirir e manter o domínio sobre os analfabetos, sobre os incautos. Sempre foi assim. Mesmo quando Martinho Lutero veio com a história de que os cristãos teriam que ser alfabetizados para ler as escrituras, ficou só nisso mesmo: ler as escrituras. Não foi dada aos protestantes a educação completa a qual as elites tinham acesso; não lhes foi dada a oportunidade de compreender o mundo que nos cerca, apenas os ensinamentos da fé que professavam. Veja: alfabetizados há séculos, eles ainda acreditam na criação, repudiam Darwin e a evolução. Nos tempos modernos, principalmente depois das revoluções burguesas, com a filosofia voltando-se para a ciência, veio a ideia de que todos precisariam estudar, que não deveria haver mais analfabetos. Depois, com a revolução industrial e o desenvolvimento de novas tecnologias, foi necessário formar engenheiros, médicos, cientistas em todas as áreas, professores etc. Então o ensino formal difundiu-se, principalmente nos países europeus, em alguns da Ásia e depois na América do Norte. Nós aqui, e outros países da periferia, tivemos pouco disso tudo, porque sempre fomos dominados por países mais ricos aos quais não interessava educar o povo do terceiro mundo, dos países subdesenvolvidos, que serviriam apenas para fornecer matéria prima e alimentos.

- Desculpe, Zezé. Isso, mais uma vez, para facilitar o domínio dos países ricos sobre os bostas que somos!

- Isso, para manter o império, com menor despesa e com maior obediência nossa. Hoje só importa aos donos do mundo a formação dos técnicos de que eles necessitam. Um técnico sabe tudo sobre sua área de atuação, mas muito pouco sobre qualquer outra coisa. Assim não entende o mundo que o cerca e aceita os mandos que vierem, mesmo porque é bem pago para exercer sua função. Então não está nem aí para os outros. Para esses técnicos, com as exceções de praxe, o mundo que se exploda. Os pesquisadores, por seu lado, os cientistas e estudiosos, estão tão focados em seu trabalho, em suas pesquisas que também não tomam conhecimento do mundo que os rodeia; sempre com as pequenas exceções de praxe. São muitas as razões que levaram à ausência ou ao colapso da formação escolar, mas, com certeza, o motivo da ausência de educação adequada é a facilitação do domínio dos poderosos sobre nós, escravos. Em resumo, é isso.

Voltamos a tomar da pinga especial. Enquanto isso, um tiroteio lá fora que durou bem uns dez minutos nos fez ficar quietos, em suspense, mas, como estávamos acostumados, logo retomamos o papo. A pinga esquentava, o estômago cheio acalmava, então a noite estava bem confortável.

- Seu Nico o que o senhor me diz sobre esse inverno que não tem fim? – perguntei.

- Olha, jovem, eu não acredito em deus, mas posso te dizer que isso é castigo que ele nos mandou. Veja, antes de começar essa merda toda, antes da porra do golpe, até o clima era diferente, e bom. Dado o golpe, destituída a presidenta e julgado de todas as formas o nosso antigo presidente, as coisas começaram a mudar. Primeiro as eleições fraudadas, fictícias, fajutas; depois, as perseguições às empresas nacionais quer fossem públicas ou privadas; mais tarde, a perseguição aos que eram contra o golpe a à implantação desse novo sistema político; por fim, a promulgação de uma nova constituição, retirando direitos que nós acreditávamos possuir; mudanças na previdência oficial, retirando ou dificultando muito a possibilidade de termos acesso aos benefícios, diga-se, pelos quais tínhamos pago com nosso trabalho; revogação das leis trabalhistas, para favorecer os empregadores, principalmente os que vinham de fora. Foi uma sequência muito grande de novas leis e alterações que retiraram nossos mais básicos direitos e que acabaram com a tal de democracia. Poucos anos depois, começou a merda desse inverno, que foi piorando ano a ano, até ficar desse jeito, até acabar com todas as possibilidades de o povo poder viver de uma forma pelo menos mais digna e com algum conforto. De qualquer forma o ser humano estava mesmo fadado a não ter mais nenhum valor... Nunca teve, mas sonhávamos que um dia viríamos a ter.

- E o senhor acha que algum dia isso poderá mudar?

- Não mais, né, Zezé? Penso que vai ser daqui para pior...

Seu Zezé não disse nada. Ficou pensativo, olhando para o teto, enquanto seu Nico e eu acabávamos com a garrafa e ele acendia mais um cigarro. Mas seu Zezé percebeu e foi buscar mais uma garrafa, enchendo bem seu próprio copo.

- Seu Nico, o senhor acha que em outros lugares existem dias de sol? O senhor acredita que nos Estadosunidos e na Europa, ou na China, sei lá, existe aquilo que o senhor disse, as estações do ano, com verão e primavera?

- Ê Zezé, eu falei isso?

- Bom, se não foi você, fui eu.

- Sei não... Faz muito tempo que não viajo. Mas penso que não; a troco de que nós viveríamos na merda desse inverno e outros viveriam no bem bom? A televisão mostra imagens do nordeste, do norte, com sol, praia, mas prá mim é só propaganda. Lá fora eu não sei como está; a TV não mostra, o esmarte não mostra, sabemos que é tudo censurado. O governo só faz propaganda e só mostra o que interessa a ele. Mas dizem que lá fora as coisas continuam como eram antes, quero dizer, não tudo, mas continua havendo sol, chuva, inverno, verão... Politicamente mudou tudo também, acabou a democracia, o mundo foi dividido entre a China e os Estadosunidos. Acho que todo mundo já sabe, e então mudou tudo, até a economia e o modo de viver. Alguns dizem que em alguns lugares do mundo ainda se respeitam as pessoas, mas em outros as coisas estão quase como aqui. Agora se em alguma parte do planeta existe inverno permanente, como aqui, não sei. Vocês conseguem acessar o esmarte aqui? Conseguem ver TV?

- Bom – retrucou seu Zezé – quem pode pagar vê a TV; o esmarte funciona, mas não é todo dia, e o rádio às vezes se pega, às vezes não. O duro é que sempre está faltando energia, o satélite sai do ar, as nuvens impedem sintonizar o rádio, pouca gente consegue revistas, enfim, estamos meio por fora de tudo.

- Lá em Campinas não é muito melhor, mas tenho amigos que pagam a TV e o rádio funciona quase todos os dias. Mas vira e mexe falta luz também. O bom é que nas ruas a gente consegue algumas notícias. Claro que muita coisa é bobagem, fofoca, boatos. Muita bobagem é o próprio governo que espalha. As autoridades devem ter seus motivos. É preciso estar muito atento para separar o joio do trigo... Tô achando que vou dormir, já estou meio alto...

- Vamos sim.

E seu Zezé foi arrumar as camas.