Sexto Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

No dia seguinte bem cedo, fui pra casa, pois não ia filar o café da manhã também; já tinha abusado. Estava meio ressaqueado, mas feliz, afinal tínhamos tido uma noite muito boa, bom papo, aprendi muita coisa. Por outro lado surgiram muitas dúvidas novas em minha cabeça; aumentou ainda mais minha curiosidade.

Em casa, encontrei minha irmã preocupada; meu sobrinho não aparecia lá há três dias e ela não tinha notícias. Às vezes ele desaparecia um dia ou dois, mas as coisas estavam bem piores, a violência só aumentava, os perigos eram cada vez maiores. Tentei acalmá-la, sem muito sucesso. Meu cunhado parece que não se importava muito; dizia que o piá era mesmo vagabundo e que talvez não aparecesse nunca mais.

Minha sobrinha, não vi. Mas meu pai me deixou preocupado também. Não queria comer, estava muito magro, não conversava. Ficava lá no seu canto se balançando, pra frente pra traz, pra frente pra traz... Tentei fazer com que comesse alguma coisa, pelo menos um pedaço de pão, mas também não tive sucesso. Fui mexer na horta.

O sol continuava fraquinho, mas não havia sinal de chuva e o frio diminuíra um pouquinho, então, seguindo o exemplo de seu Zezé, fui refazer a horta. Precisava produzir alguma coisa e rápido. A comida andava escassa e muito cara e eu precisava ganhar algum dinheiro. Se o sol se mantivesse no céu por alguns dias, logo eu teria alguma colheita. Trabalhei a manhã inteira; no almoço, comi alguma coisinha que tinha em casa, mas assim que pude me mandei para a casa de seu Zezé; queria aproveitar mais a presença de seu Nico.

Quando cheguei, eles estavam no quintal trabalhando na horta. Seu Zezé ainda era forte e trabalhava com afinco. Seu Nico, com um cigarro pendurado na boca, ia mais devagar, mais fingia do que trabalhava. Cumprimentei-os e fui saudado com votos de boas vindas. Então recomecei as perguntas.

- Seu Nico, por que será que deram o golpe, por que afastaram uma presidenta eleita pelo povo?

- Ê Zezé, seu pupilo é mesmo curioso, ainda bem! Hoje em dia as pessoas não são nada curiosas, ninguém quer saber nada, a não ser como sobreviver, como ganhar algum, como passar alguém pra traz. Herança do novo governo, já que eles nunca respeitaram as leis, nunca se preocuparam com o povo, nunca se deram ao trabalho de defender nossa pátria ou nossos interesses. Já que não tínhamos educação antes e já que essa péssima educação de nosso tempo piorou ainda mais após o golpe, era de se esperar que as coisas ficassem assim: todos idiotizados, todos sem perspectivas. Até nossos sonhos, eles foram capazes de destruir e, pior, de impedir que sonhássemos novamente. Fico pensando, as pessoas foram se anulando, acreditando em promessas vãs de que as coisas melhorariam se abrissem mão de seus direitos, se abrissem mão do desejo de uma vida melhor, se aceitassem sem discussão as ordens daquela oligarquia que tomou o poder. A força da propaganda, com o uso criminoso da grande mídia da época, das redes sociais, do que se chamava internet, dos programas que permitiam adentrar o recôndito mais íntimo de cada um, é imensurável, é quase inacreditável... Acho que o Zezé consegue responder melhor sua pergunta, meu jovem.

- Nada Nico, você sabe muito mais do que eu e sabe explicar melhor. Contudo, penso que tudo foi muito bem orquestrado. A velha oligarquia de sempre, os que sempre detiveram o poder econômico, os que sempre lucraram com o capitalismo selvagem, com o suor dos menos favorecidos, só queriam ganhar mais, ajuntar mais, se tornarem cada vez mais poderosos, tudo com garantia absoluta, fornecida pelo estado. Era mais fácil destituir uma presidenta eleita democraticamente e que opunha algum obstáculo à sua sanha de ganhos e lucros e instalar em seu lugar alguns títeres, alguns paus mandados, como se diz, que fariam tudo conforme suas vontades, que tudo fariam para agradar-lhes. Depois ficou mais fácil engambelar o povo, que já vinha se portando como otário, acreditando e seguindo os ditames dos poderosos. Começaram com uma propaganda muito grande contra a política distributiva que se realizava, contra a melhora nas condições econômicas dos mais pobres, contra as cotas em universidades, contra as garantias trabalhistas, gastos em saúde pública e educação e assim por diante. Depois se agarraram a uma crise econômica que existia, começaram a fazer exigências ao governo federal para garantir suas rendas, inventaram que teria havido crime contra a lei de orçamento, cooptaram deputados e senadores, tudo com grande apoio de federações industriais e agrícolas, com respaldo num judiciário elitizado e fascista, além de corrupto, e grande campanha através de revistas, jornais e televisão, que na época tinham mesmo muito poder. Coisa difícil de acreditar, mas foi assim. Uma imensa nação, milhões de pessoas acreditando nessas balelas. Lembra Nico, esses crentes e defensores do novo governo democrático de salvação da nação eram chamados de coxinhas, nem sei bem porque, mas era o apelido deles.

- E nós, os trouxas, éramos chamados de mortadelas, hehehe. Eu até prefiro mortadela à coxinha, hehehe.

- Pois é, mas foi assim. O interesse deles era permitir maiores ganhos nos investimentos em papéis, em bolsas de valores, títulos do governo; roubavam aqui, mandavam o dinheiro para paraísos fiscais e depois o investiam aqui mesmo, travestido de dinheiro do exterior, em investimentos externos, ganhando rios de dinheiro, sem produzir absolutamente nada, sem criar um único emprego. Ao mesmo tempo queriam diminuir a conta salário nas empresas, diminuir o custo da mão de obra de qualquer maneira. Mais ou menos assim: aumentem a produção e ganhem menos por isso, sem reclamar, mesmo porque ameaçavam os trabalhadores com desemprego, que realmente havia. Para isso mudaram as leis trabalhistas, retirando direitos e garantias do trabalhador e dando ao empregador autonomia para tratar seus empregados do jeito que lhes aprouvesse. Acabaram, ou quase, com a previdência, que de qualquer forma vai se extinguir em poucos anos já que não há mais aposentadoria e os que ainda recebem alguma coisa, como eu e seu pai, morreremos muito em breve.

- Interessante, Zezé, como o governo vende isso como se fosse um grande ganho para todos: acabamos com o déficit previdenciário que era o culpado pelas mazelas do país e de todos. Acabou-se o déficit previdenciário e o país virou essa merda; acabou-se com as leis trabalhistas e o país virou essa merda e seu povo uma merda ainda mais fedida. Acabem com o povo e a nação será mais feliz, mais rica, mais próspera. Como é que alguém pôde acreditar nisso? Como é que existem alguns que acreditam nessa porra e ainda a defendem? Puta que o pariu, como é que pode um absurdo desses?

Seu Zezé tinha sentado, enxugando o rosto com um trapo velho e encardido. Seu Nico há muito já tinha largado o trabalho e estava sentado numa pedra, pitando seu cigarro fedido. Eu matutava. Ao longe uma gritaria, palavrões de todo calão, tiros... Estávamos acostumados...

- Lá em Campinas tem dessas coisas, Nico?

- Tem muito mais! Nós moramos num barraco, numa favela que não é muito grande, e todo dia tem dois ou três assassinatos. Em nosso barraco temos um cômodo de tijolo, com uma janelinha bem pequena e a porta é de ferro; é onde dormimos, senão seu irmão aqui já não estaria vivo pra contar essas histórias. Em todas as cidades grandes a coisa é mais ou menos assim ou pior. Veja que São Paulo já teve mais de quinze milhões de habitantes e hoje não tem nem dez! A violência, as doenças, a fome têm destruído as cidades. Em todo canto é assim. Quem pôde saiu para o interior, mas nas cidades pequenas não há emprego, não tem como sobreviver, e a violência é quase a mesma.

- E nos outros países, seu Nico, é assim também? – perguntei.

- Sei não, rapaz! Ouvi dizer que a população do mundo vem diminuindo muito, principalmente nos lugares mais pobres. Parece que os governos estão satisfeitos com isso: menos bocas pra se alimentar, menos encheção de saco com revoltas, com manifestações, com solicitações, com despesas judiciárias, policiais e carcerárias. Depois que destruíram os muçulmanos e seus terroristas, ou lutadores pela fé, parece que não há mais guerras, só a destruição lenta e contínua da população por métodos mais civilizados: fome, doença, violência urbana, drogas e coisas assim.

- Desculpa seu Nico, não é que o senhor seja pessimista; o senhor pensa igual seu Zezé. Mas fico pensando: e o futuro, o que será de nós? Como sobreviveremos?

- O futuro! Veja Zezé, nós nem pensamos mais no futuro! Futuro... Que futuro nós poderemos ter nas mãos dos robôs? A merda do mundo é para os ricos, para os poderosos e para os robôs. Só eles têm futuro, só eles podem sonhar, o mundo pertence a eles. Nós não contamos, não somos nada, somos descartáveis, um bando de miseráveis que só quer comer, beber e foder. Nem filhos, temos mais! Somos um estorvo à nova civilização, ao mundo ultramoderno, ao mundo da pós-verdade, ao mundo pós-deus. Nosso futuro é apodrecermos lentamente, enquanto ainda estamos respirando. A porra da política, a merda da tecnologia, a bosta da produtividade, a nossa estupidez e covardia nos fizeram isso. Restos de uma humanidade, últimos sonhadores de uma utopia inatingível, bagaços de uma civilização esdrúxula que ousou imaginar algum valor nos seres humanos, que se diziam sapientes, superiores. Futuro?... Desculpe amigo, perdi qualquer fé, em qualquer coisa. Não sei mais sonhar!

- O Nico é meio exagerado, mas também não deixa de ter razão. Desculpe, amigo, mas o mundo virou mesmo uma merda. Você, que é mais novo, é que poderia nos dizer sobre o futuro. O que você pensa, o que você deseja para seu futuro?

- Ah, não sei dizer não, seu Zezé. Quando criança sonhava em ser jogador de futebol; hoje nem em futebol se ouve falar. Estudei com o senhor, era escola pública, que quase não existe mais, o senhor nos ensinava história, nos fazia pensar, nos mostrava as coisas. Depois, quando o senhor foi preso a escola mudou, já não nos ensinavam nada, tudo parecia um teatro. Até o professor de matemática, seu Nuno, lembra, mudou suas aulas, já não ensinava nada, não nos exigia nada. Virou mesmo um teatro; todo mundo tinha medo de tudo, até de ensinar. Quando perguntávamos sobre o golpe, sobre o novo governo, os próprios professores diziam: que golpe? Nunca mais fale sobre isso, está ouvindo! E a gargalhada era geral. Os professores tinham medo dos alunos; vi muitos deles serem agredidos e até mortos. Depois que saí, a escola fechou. Disseram que seria reformada, que viriam novos professores, que o ensino iria melhorar, mas até hoje não reabriu. Sei, porque meu amigo Mai, lá de São José, me disse que os ricos estudam, que existem escolas particulares e que eles se formam engenheiros, médicos e até professores, mas isso é só para eles. Meus sobrinhos estão perdidos, algumas crianças que vejo por aí estão sem rumo, não têm o que fazer, a não ser pedir aqui e ali, comer qualquer coisa para não morrer de fome. Eu não tenho o que fazer; planto alguma verdura que às vezes consigo vender; de vez em quando, consigo um bico, quando chove muito, como aconteceu nesses dias, ou quando tem algum sol. Só fumo quando alguém me dá um cigarro, só bebo quando alguém me dá uma pinga, só como quando tem comida, só namoro de vez em quando, porque as mulheres querem dinheiro, querem que lhes pague alguma comida ou mesmo bebida; só sei das coisas quando me contam. Não tenho esmarte, quer dizer, não tenho crédito, não vejo TV, não leio as revistas do governo, não tenho como ouvir rádio. Sem o seu Zezé, eu seria o mais otário, o mais idiota de todos. E acho que sou. Não sei o que esperar. Não vejo nenhum futuro! Estou como o senhor, seu Nico, não sei o que pensar sobre algum futuro...

- Não é bem assim – disse seu Zezé. Existe um futuro, só não conseguimos atinar com o que virá. O ser humano sempre sobreviveu mesmo nas piores circunstâncias. As coisas ainda vão mudar. Você, vocês jovens, podem lutar e mudar as coisas; podem fazer seu futuro.

- Você acredita nisso? – perguntou seu Nico.

- Sei lá – respondeu seu Zezé – Vamos entrar que está anoitecendo!

- Futebol! Lembra Zezé como torcíamos pelo nosso time, como era bom acompanhar o campeonato brasileiro? E jogávamos muito também; eu até que não era ruim, poderia ter sido profissional. Você era perna de pau. Hoje quase só existe o futebol estrangeiro, que não podemos ver porque não podemos pagar... Aqui? Aqui nem campeonato certo temos mais; ou a chuva não deixa, ou houve briga antes do jogo com sei lá quantas mortes, ou os jogadores adversários não chegaram, ou não quiseram jogar e assim vai. Até o futebol dá saudade.

O solzinho já estava se escondendo. Estávamos sem energia ainda. Outra noite escura se avizinhava. Era hora de ir embora, pensativo, tristonho, desacorçoado. Tinha que ir embora. Desta vez não aceitei os convites para ficar e jantar. Não poderia abusar, a vida não era mesmo muito fácil. Despedi-me com dor no coração, queria continuar a conversa. Gostei de abrir meu coração. Aprendia muito com os dois irmãos, conseguia pensar, me sentia gente! Contudo tinha que voltar para minha casa.

Lá as coisas não iam bem. Meu pai não tinha comido nada durante todo o dia, meu sobrinho não tinha aparecido, minha irmã estava em desespero, meu cunhado não estava nem aí, minha sobrinha estava absolutamente paranoica, porque o esmarte estava fora do ar. Tudo perfeito!

Naquela noite não jantei, fui dormir cedo. Mas dormi muito mal; não sei se era fome, se era pelas conversas do dia, se era a preocupação com as coisas e as pessoas da casa, sei lá, mas alguma coisa me incomodava. Sentia uma opressão, uma coisa ruim, difícil de explicar; cochilava um pouco e já sonhava, sonhos muito estranhos, e logo acordava, não encontrava posição na cama, sentia frio.

Mal o dia clareou, levantei, comi uns bolinhos de chuva que minha irmã tinha feito no dia anterior e fui mexer na horta. O trabalho me faria bem, talvez me fizesse esquecer a noite mal dormida. Trabalhei algumas horas, limpando, refazendo canteiros, virando a terra, preparando tudo para plantar novamente e realmente me senti melhor, até minha irmã me chamar para atender meu pai que ainda não tinha acordado.

Meu velho pai não acordaria jamais: estava morto. Havia falecido durante a noite; não fez nenhum ruído, não pediu ajuda. Morreu ao que parece de forma serena. Pelo menos seu sofrimento chegara ao fim, pensei.

Tivemos que ir à delegacia para declarar o óbito; em nossos dias não havia necessidade de atestados, certidões, bastava declarar na delegacia, com duas testemunhas. Também não tínhamos caixões, que eram muito caros e a prefeitura não os fornecia mais. Enrolamos meu pai em uma mortalha, uma colcha velha que havia em seu quarto, e fizemos o funeral, com poucas pessoas. Seu Zezé e seu Nico compareceram. Meu sobrinho não apareceu; minha sobrinha não foi até o cemitério. Não conseguimos contato com meu irmão, paciência, depois eu o avisaria.

Como há alguns dias não chovia, conseguimos sepultar o corpo com bem menos lama do que no sepultamento do seu Quinzinho.

Ao fim, seu Zezé bateu em meu ombro e comentou:

- Coitado do Carlinhos, era muito bom homem! Sofreu muito com as coisas que estão acontecendo. Eu gostava muito dele, fomos bons amigos...

- Eu também o conheci, bom homem mesmo – disse seu Nico.

Fiquei bem triste, chorei muito quando fui para o quarto dormir. Outra noite de insônia. Levantei, procurei alguma cachaça para beber e não encontrei. Sentei-me na cadeira de meu pai, lá no seu cantinho e passei a noite ali, matutando.