Sétimo Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

No dia seguinte ao enterro, passei a manhã inteira trabalhando na horta. Consegui plantar alguns canteiros, semeei algumas verduras em sementeiras para produzir as mudas, plantei abóbora, cenoura, beterraba, chuchu e mais alguns legumes. As coisas iriam ficar mais complicadas, pois perderíamos a pensãozinha de meu pai. Eu teria que arranjar alguma maneira de ganhar algum dinheiro.

Já de tardezinha fui à casa do seu Zezé. Eles não estavam. Sentei nos degraus da frente e fiquei matutando sobre o que fazer, como ganhar algum dinheiro

Quando já começava a anoitecer os dois irmãos chegaram e me saudaram com entusiasmo. Vinham animados; tinham ido pescar numa lagoa onde moravam alguns amigos de seu Zezé. Conseguiram três peixes, até bem grandinhos e me convidaram para jantar. Aceitei, afinal estava com fome, triste, preocupado, precisava conversar, precisava de amigos, mas também me veio à mente a possibilidade de uma cachacinha: seria muito bem vinda.

Havia energia e até o rádio estava funcionando. Alegrou um pouco o ambiente. A cachaça veio logo e da boa. Seu Nico já fumava, seu Zezé ia limpar os peixes, mas me ofereci para o trabalho, enquanto ele tomaria um banho quente, já que nos últimos dias só tomávamos banhos frios. Seu Nico se aproximou enquanto eu limpava os peixes.

- Pois é! Seu pai sempre foi um homem trabalhador; sua mãe também era boa pessoa. Eu os conheci bem.

- Olha seu Nico, conheci pouco minha mãe; o pai nos últimos anos nem conversava direito. Ficava lá no seu canto, não gostava que o perturbassem. Acredito que as mudanças na vida o afetaram muito e com a morte da mãe ele desistiu de vez... Não gostava mais da vida... Acho que sofreu muito, por muitos anos. Às vezes fico arrependido, penso que não ajudei o bastante, que poderia ter sido mais companheiro, diminuir seu sofrimento. Agora já não posso fazer nada; só sobram as lembranças...

- A gente sempre pensa assim quando perde alguém que se ama, mas não é verdade. Todos nós fazemos aquilo que está ao nosso alcance. Nem sempre é suficiente, mas é o que podemos fazer. Nós não temos tanta culpa no que acontece; na maioria das vezes somos apenas observadores impotentes. Uma andorinha não faz verão...

- Na verdade eu sou uma besta, uma besta quadrada. Veja, seu Nico, meu irmão ganha dinheiro, vive bem, mora em Curitiba, seus filhos estudam, têm roupas, comida boa, vida tranquila. Eu deveria ter seguido o caminho dele, não estaria nessa vida atrasada, sem perspectivas, sem nada de bom. Nem emprego eu consigo...

- O que seu irmão faz?

- Ele é segurança de algum político, nem sei quem é, mas é rico, é poderoso.

- Pois é, vai ver que vendeu a alma ao diabo. Aposto que sua vida é bem melhor do que a dele. Viver à sombra de outro, dependente das vontades alheias, sem poder sequer se manifestar, não poder dar sua opinião, estar ao dispor do outro o tempo todo? Ah não! Prefiro essa vida mais livre e solta. De qualquer forma, nós sobrevivemos mesmo sem esses luxos dos ricos, e cachaça é tão bom quanto cerveja importada, até melhor do que vinho e champanhe. Às vezes, até conseguimos uns peixinhos, né?

- Peixinhos é zombaria sua – disse seu Zezé voltando do banho. Isso é um banquete! Não é fácil conseguir pescar por aqui, demos sorte hoje.

- É mesmo. Faz tempo que não como peixe, temos que brindar. Que venha essa pinga deliciosa!

Peixe limpo, seu Zezé iniciou o preparo do jantar. Cozinhava com lenha; fazia dias que não conseguíamos gás. Mas a comida na lenha era até mais gostosa e agora já tinha bastante lenha seca.

Seu Zezé queria saber de mim e, mais uma vez, me salvou. Ouviu minhas lamúrias, minhas preocupações, e encontrou um meio de me ajudar.

- Olha, tenho um amigo que cria uns porcos. Ele está precisando ajuda; você pode auxiliá-lo lá na pocilga, fazer a entrega de carne no mercado e até vender alguma coisa. O que você acha?

- Nossa senhora! Seria maravilhoso.

- Tem certo risco. As pessoas às vezes roubam a carne, até com violência. É preciso disfarçar, esconder, ter muito cuidado. Depois, quando você recebe, querem roubar o dinheiro, tem que ter cuidado.

- Mesmo assim eu topo. Aposto que consigo me virar e até aumentar os ganhos do seu amigo.

- Bom, pode contar então.

- Então vamos brindar – propôs logo seu Nico. E brindamos, cachaça boa não se encontra todo dia.

- Seu Zezé, por que as pessoas são assim? Meu sobrinho desapareceu, minha sobrinha não quis ir ao enterro do meu pai, as pessoas passam fome, não têm trabalho, ficam se matando umas às outras, cada um roubando o outro para sobreviver, vivem em favelas, taperas, barracos, parece que preferem viver na ignorância, não querem aprender nada, não querem entender nada, vivem como bichos. Será que não querem ter uma vida melhor? Será que não querem ser tratados como seres humanos? Não têm amor uns pelos outros? Minha sobrinha não tinha nenhum amor pelo meu pai, seu avô?

Enquanto eu falava, fazia essas perguntas, lágrimas começaram a rolar, molhando meu rosto. Nem tentei escondê-las. Seu Zezé pensou um bom tempo antes de me responder.

- Olha, é meio complicado, não entendo muito dessas coisas. As pessoas são mesmo muito estranhas. Há algum tempo, eu li que o que as pessoas fazem é devido ao seu instinto de sobrevivência; quase tudo que fazem é apenas para tentar sobreviver, a qualquer custo, contra todas as adversidades. Deve ser assim mesmo... Penso que o homem comum, quer dizer homens e mulheres, não consegue ter um entendimento do que o envolve, não consegue entender o ciclo de nascimento, vida e morte, não percebe que sua vida depende de outros, depende do meio onde ele está vivendo. As pessoas sentem medo e ao mesmo tempo têm a obrigação de sobreviver, então procuram uma maneira de fazer isso, correndo o menor risco possível. É também por causa do imperativo da sobrevivência que homens e mulheres geram filhos, a fim de que eles mantenham nossa espécie, mesmo à custa de muito sofrimento. Penso que o homem comum vive isolado, não se agrupa para reivindicar uma vida melhor; é como se fosse cada um por si e deus por todos, bem ao contrário do que era no princípio de nossa espécie. As pessoas não conversam sobre a vida, sobre a sobrevivência, sobre como se organizarem para agir em conjunto. Por isso, quando a coisa aperta, como agora, desaparecem o amor, a solidariedade e o altruísmo. Cada um procura se virar como pode. Apenas os que são mais chegados se solidarizam, embora até certo limite. No pega pra capar, não ajudam nem os mais próximos, os familiares. Em contrapartida, os ricos sempre se auxiliam, sempre trabalham em defesa do seu grupo, apoiando-se mutuamente para não correrem o risco de perderem o que têm. Mesmo que se odeiem, que queiram tomar o que o outro possui, que se esfolem na luta para ser maior que o outro, unem-se, quando precisam se defender, como se fossem um pelotão de soldados em guerra. O patrimônio, o ganho, o lucro, para eles é sagrado, não permitem que nada ou ninguém venha a prejudicar seus ganhos. Depois, quando as coisas estão calmas, digladiam-se entre si, matam-se, roubam uns aos outros, mas tudo entre eles. O homem comum nem toma conhecimento do que ocorre entre os membros da elite. Quando é para nos ferrar, eles são absolutamente unidos; quando a coisa é entre eles, quem pode mais chora menos. Nós, ao contrário, não os peitamos, não nos unimos para defender-nos; matamos uns aos outros, sem que qualquer um ganhe nada com isso. Não fomos e nunca seremos unidos; queremos apenas sobreviver e aí adeus amor, adeus parentesco, adeus solidariedade, adeus ajuda mútua.

Ficamos algum tempo matutando as palavras de seu Zezé. Seu Nico fumando, seu Zezé olhando a panela, eu de cabeça baixa, pensando, lembrando meus parentes, os amigos, a cidade onde morávamos, imaginando um mundo onde as pessoas pudessem viver melhor, com mais respeito, mais dignidade, mais justiça, mais amizade sincera, mais amor...

- Olha Zezé, você está muito certo. Porra... Vai queimar o peixe...

- Opa, esse peixe vale muito...

- Tem mais cachaça, Zezé. Essa aqui tá no fim...

- Tem uma garrafa ainda, amanhã vou buscar mais, mas vai ser da ruim, essa só daqui a uns meses, se o compadre conseguir fazer mais.

Nessa altura começou a chover. Chuva forte, com trovões e relâmpagos. Logo, logo, acabaria a luz, mas por enquanto estávamos iluminados e a conversa voltou.

- Zezé, as pessoas vivem o dia a dia, nunca pensam no futuro. A vida é dura, é difícil... A maioria das pessoas não está disposta a arriscar, a perder qualquer coisa que tenha, muito menos a sofrer, não o sofrimento da sobrevivência, das perdas emocionais, mas o sofrimento físico, a dor corporal, a tortura, a prisão... Nós mesmos somos o exemplo que eles não querem seguir. Você foi preso, foi torturado, perdeu sua família; eu perdi tudo o que tinha: dinheiro, vida de burguês, conforto, posição social status, títulos... Quem em sã consciência gostaria de seguir nosso exemplo e aumentar ainda mais seus sofrimentos? Não digo que seja apenas covardia, as pessoas são fracas, são frágeis, se apequenam frente aos poderosos por medo, por se acharem incapazes, por não encontrarem forças que as levem à luta.

- Seu Nico, é por isso que umas poucas pessoas, só porque são ricas, dominam toda uma população e fazem o que querem, sem que ninguém se revolte, mate-as ou pelos menos tire o poder de suas mãos?

- Isso, meu filho, isso mesmo. É igual ao boiadeiro que sozinho comanda uma manada de bois e os domina, tangendo pra cá e pra lá, sem que o rebanho se revolte. Nós, homens comuns, somos reses de rebanho: somos tocados pra lá e pra cá, seguimos o que nos mandam, vivemos do jeito que nos obrigam, sofremos calados, amuados, até que nos conduzam ao matadouro. Aí queremos espernear, gritar, com faz o boi, mas a essas alturas, já estamos manietados, presos no tronco. Nossos gritos, nossos coices, agora são em vão. Morremos revoltados, esperneando, mas morremos assim mesmo. O pior é que se algum touro, ou uma vaca velha, alertar o rebanho, nenhum boi da manada irá ouvi-los; ao contrário, vai chama-lo de tolo, de alienado porque o patrão oferece pasto bom, sal no cocho, água fresca, fêmeas bonitas e machos bons para procriarem. Então pra que se revoltar, por que acreditar em alguns visionários, que só querem tirar a vida boa em que vivemos? Se hoje não tem pão, tem broa de milho; se faltar carne, comeremos frango; se não tem médico, vamos à farmácia; e se não temos farmácia, tomamos um chá caseiro... Pra que brigar? Eu até posso brigar com você, posso roubar sua fêmea, seu dinheiro, sua comida, mas não vou brigar contra o boiadeiro, não vou brigar contra o capataz: eles são muito poderosos... Os homens são que nem boi, são carneirinhos, são galinha de granja... Até o leão se humilha e se curva frente ao domador, que dirá dessa espécie humana que nunca valeu nada!

- Isso, Nico, nunca valemos nada. O homem sempre foi muito valente frente a outros animais que não têm a mesma capacidade mental, dominando-os, domesticando-os, através de ardis, de engodos, ou mesmo do castigo, do sofrimento. Mas eu penso que o homem é mesmo covarde. Quantas pessoas que estudaram, que aprenderam muita coisa da história, da ciência, quantos doutores, professores, pesquisadores, líderes religiosos, artistas, escritores, engenheiros, e sei lá que mais, mas que se fizeram de surdos quando foram solicitados a se manifestarem e a se rebelarem, a mostrarem aos outros menos estudados as verdades das coisas que ocorriam, que se esconderam, que não lutaram ou ao menos não disseram a verdade quando podiam muito bem ter feito isso? Muitos não quiseram pensar, recusaram-se a ouvir, deixaram-se levar pelas notícias de uma imprensa que só se dedicava a defender os patrões e seus lucros, preocuparam-se apenas em manter seu status na sociedade em que viviam, com medo de perder qualquer merreca que possuíam. Todos muito covardes, muito hedonistas, muito metidos a besta... Desculpem: são muito filhos da puta!

- Zezé falando palavrão, hahaha, coisa rara!

- Desculpe, mas tem hora que gente perde a estribeira... Vocês me fazem falar, ficam me cutucando, agora têm que escutar!

- Mas você está certo, é isso mesmo. E as pessoas, na maioria das vezes, sempre bajularam, sempre veneraram os que possuem algum título ou dinheiro. Sempre se colocaram em posição subserviente aos que têm algum poder ou qualquer título de merda. Nos tempos mais antigos, eram barões, príncipes, duques, reis, generais e até comendadores; depois vieram os doutores, empresários, industriais ou qualquer porra assim. Qualquer titulozinho vale para dominar os incautos, para merecer a veneração dos tolos. Por outro lado, a pessoa pensa que faz parte da elite, que é diferenciada, porque tem um pedaço de terra, porque tem casa boa e carro importado, porque é chamada de doutor ou porque tem uma empresa e é patrão. Acha que é melhor que os outros, que vale mais que as demais pessoas. Ela não tem noção de que é apenas uma engrenagem que transfere a força, o poder, a outros que lhe são realmente muito superiores; que age como um preposto, como um capataz, que só obedece aos que são os verdadeiros donos do poder e das pessoas. E defende os poderosos, porque aprendeu a ser assim, porque nunca avaliou como são mesmo as reais relações entre as pessoas, como é que a sociedade econômica funciona, como é que o capitalismo usa as pessoas, inclusive a ela mesma. Quando o governo e o sistema mudaram, esse indivíduo pensou que ia se safar, afinal sempre defendeu o poder, sempre defendeu o mais rico. Mas o mais rico nunca se preocupou com ele e, na hora H, tirou o tapete de seus pés e hoje ele se lamenta, embora não sei se se arrependa, mas também não se revolta. Essa pessoa não sabe o que é isso, pois não aprendeu a lutar, a se defender. Aprendeu só a tirar proveito do que é mais fraco, a ganhar dinheiro a custas dos mais bobos, dos que tiveram menos sorte na vida, dos que não puderam aprender ou não tiveram como se tornar safado, e, assim como esses, têm medo, são covardes. Alguns ainda tentam manter as aparências, mas no fundo estão tão fodidos como nós. Tudo a mesma merda...

- Porque será que as pessoas são assim? – perguntei.

- Elas foram educadas para isso; foram criadas assim, ensinadas a valorizar os mais fortes. Talvez isso venha dos tempos antigos, dos tempos da escravidão ou mesmo dos tempos em que os ganhadores de uma guerra escravizavam seus derrotados, então os senhores eram considerados superiores, mais fortes, mais inteligentes, mais capazes. Nessa fase da história, era natural que fosse assim e que o ser humano pensasse assim. Depois essa maneira de pensar e de agir continuou nas gerações seguintes e tornou-se normal admirar, respeitar, obedecer, curvar-se frente a alguém que teria mais força, mais poder, mais dinheiro. Bastaria ter o título de doutor, coronel, governador, rei, visconde, comendador ou qualquer outro para ser superior aos demais e todos se submeteram a isso. Talvez o fato de aceitar uma pseudossuperioridade de outra pessoa demonstre também o medo, porque se rebelar contra o mando de quem demonstra ter mais força e poder pode trazer sofrimentos, dificuldades de sobreviver, para a própria pessoa ou para seus descendentes – respondeu seu Zezé.

- É o caso dos patrões. Eles sempre se acharam superiores, porque, afinal, promoviam as condições para a sobrevivência de seus empregados. Isso também vem de muito antigamente, vem dos tempos dos imperadores, dos suseranos, dos que se achavam donos das pessoas. O patrão pensa que seus empregados lhe são devedores, que devem ser submissos, fiéis, cumpridores de ordens, por mais absurdas que venham a ser, porque lhes devem a sobrevivência, sua e de sua família. O patrão é limpinho, usa roupas elegantes, na moda, de marcas caríssimas, é cheiroso, tem cabelos lindos e perfumados, é bem barbeado e usa bolsas Vuiton e salto alto. Ele se esquece de que sem seus empregados não poderia ter todo esse luxo, não conseguiria comer caviar e lagosta acompanhados de champanhe nem teria seus aeromóveis, aviões e iates. Veja, jovem, um homem que é proprietário de uma vaca pode tratar, alimentar e ordenhar essa vaca com certa facilidade, mas o produto de seu trabalho, o leite retirado, não lhe proporcionará uma renda que permita ter algum dinheiro ou algum poder; mal será suficiente para sua sobrevivência. No entanto quando ele passa a ser proprietário de vinte, cinquenta ou cem vacas, que já lhe darão lucro pelo produto comercializado e, portanto, uma poupança, algum patrimônio maior e algum poder, não conseguirá alimentá-las e ordenhá-las sozinho; precisará ajuda, precisará de mais pessoas para dar conta de todo o trabalho, precisará empregados, colaboradores. Da mesma forma aquele homem que fabricava um cesto por dia e que passou a comercializar uma grosa por dia, precisará com certeza de pessoas que o ajudem a produzir e comercializar tal volume. Mas nenhum deles propõe aos seus auxiliares um trabalho em cooperação, uma sociedade na posse dos meios de produção e uma divisão mais equitativa do lucro obtido com o leite ou com os balaios. Não. O dono da vaca ou das máquinas que fazem balaio quer o lucro todo para ele mesmo, quer aumentar cada vez mais seus ganhos, sua capacidade de produção, seu patrimônio. Ele quer possuir cada vez mais bens e mais dinheiro e, consequentemente mais poder, sem a mínima preocupação com seus empregados. Não se preocupa se os empregados recebem salário justo, que lhes permita uma alimentação adequada, uma vestimenta digna, tempo para descanso adequado e laser, capacidade de prover educação e formação de qualidade a seus filhos e a si mesmos. Nada disso interessa! O único interesse de quem possui é possuir cada vez mais, ter cada vez mais poder, mesmo porque o poder lhe permite que tenha ainda mais superioridade sobre os que, por qualquer motivo, não alcançaram os ganhos econômicos que o patrão conseguiu.

E continuou seu Nico, entusiasmado:

- E depois veem com essa história de mérito, de meritocracia! Balela! Ora, a maioria dos ricos o é por herança, não por méritos próprios. Outros se tornam ricos agindo de forma não muito lícita, aproveitando-se da ingenuidade ou da extrema necessidade de outros, sonegando aqui ou ali, pagando o mínimo possível aos que fornecem energia de trabalho para eles, utilizando-se de métodos não muito ortodoxos em seu comércio, ou roubando mesmo, traficando, matando seus inimigos ou concorrentes, fazendo dumping, formando cartéis e assim por diante. Muito raro é alguém atingir altos ganhos financeiros ou ocupar cargos de poder, apenas por seus méritos próprios.

- Olha Nico, quando os trabalhadores se revoltam, ou revoltavam, sempre saem perdendo. Algumas vezes na história, eles alcançaram algum ganho, algum direito, mas só após muita luta, muito sofrimento, muita morte. Mesmo assim, quando o patrão cede, transfere algum ganho ou algum direito aos seus empregados, ele o faz sabendo que lá na frente quem sairá ganhando é ele mesmo. Os patrões dão para acalmar seus empregados, para que eles voltem a produzir e produzir cada vez mais, para que sobrevivam e continuem a servi-los, para que produzam filhos que venham a substituí-los quando não puderem mais produzir, para que se aquietem e não tragam mais problemas ou prejudiquem de alguma forma a produtividade e os ganhos daí advindos. Lembra, Nico, quando foi fundado o partido dos trabalhadores? Ao início o partido foi aceito porque nunca a oligarquia imaginou que esse partido pudesse, em algum tempo, vir a se tornar forte ou alcançar algum poder. Depois, quando o partido elegeu o presidente, toleraram sua posse, porque pensavam que, dando corda a um partido popular, eles mesmos se enforcariam. Tinham a certeza de que aquele operário, sem curso superior, sem títulos, não seria capaz de dirigir uma nação, que eles julgavam muito grande. Quiseram, depois, tirá-lo do cargo, mas o apoio popular muito grande naquele momento impediu que o fizessem. Mas a continuidade de algum poder nas mãos de partido popular, partido de trabalhadores, foi demais, foi inadmissível, então deram o golpe. Claro que muitos quiseram se aproveitar da eleição de um partido de trabalhadores para proveito próprio; muitos foram os que se locupletaram, que desviaram recursos, que se corromperam, que acabaram se enforcando com aquela corda que lhes foi oferecida. Mas, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Tiram-se os direitos, tira-se a democracia, tira-se a liberdade, a dignidade, a capacidade de sobrevivência, para aumentar os ganhos pessoais. Vende-se ou entrega-se uma nação, nossa pátria, nosso povo, para se viver no fausto, no luxo e na luxúria. Absurdo! Fico mesmo revoltado...

E a chuva caia forte; a luz acabou. Ficamos calados um bom tempo. Nem aproveitamos bem o peixe, tão entusiasmados estávamos na conversa. Fomos dormir, é o que nos restava a fazer naquela noite.