Oitavo Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Passei dois dias resolvendo problemas, discutindo com minha irmã e meu cunhado, procurando notícias de meu sobrinho, trabalhando um pouco na horta. Fui a São José, pois tive que ir ao banco, conversei um pouco com meu amigo Mai, fui à delegacia, enfim dois dias de trabalho e correria.

Quando voltei à casa de seu Zezé, seu Nico já tinha ido embora. Aproveitara esses dois dias sem chuva, depois do toró daquela noite, e voltou para sua casa em Campinas. Teria outra longa e cansativa viagem pela frente. A vida não estava fácil não, e era muito perigosa...

Não consegui o negócio dos porcos. Seu Nonô, o dono, alegou que não estava produzindo quase nada, não tinha como me pagar, porque não estava conseguindo vender nada. Paciência! Teria que procurar outra forma de ganhar algum dinheiro. Por sorte, voltando da casa de seu Nonô, encontrei um caminhão atolado que carregava milho para um pequeno moinho em Pinhalzinho e ajudei o motorista que ao fim me convidou para ajudá-lo nas viagens do porto para Pinhalzinho; estava com medo de viajar sozinho, o caminhão era velho, as estradas muito ruins e com muito ladrão. Aceitei.

Nunca soube como o pessoal de Pinhalzinho conseguira aquele milho. Mesmo porque não perguntei. O Jonathan, meu novo patrão, me disse que o milho vinha dos Estadosunidos que, num ato de humanidade, tinha enviado algumas toneladas para nós, a fim de diminuir a fome que grassava por aqui, porque não estávamos produzindo o suficiente em alimentos para o povo. Trocariam pelo petróleo, já que estavam iniciando a extração; seria como um pagamento adiantado. Assim passei uns quarenta dias viajando com ele e ganhei um dinheirinho.

Foi muito bom, conheci muitos lugares, vi o mar e durante todo esse tempo conversamos muito. Ele conhecia muita gente, de vários lugares. Confirmou que o inverno persistia em todo canto do Brasil, mesmo lá no nordeste, onde antigamente não chovia. Confirmou também que a maioria das indústrias estava fechada, que a lavoura vinha produzindo muito pouco, que o desemprego era geral, que as cidades grandes estavam se esvaziando e que a violência grassava por todo canto.

Na minha cidade apareciam muitos andarilhos, mas fiquei assustado com a quantidade de andarilhos pelas estradas e até nas cidades. Isso me impressionou muito. Perguntei ao meu companheiro e ele me disse que era assim por toda a parte. Parece que as pessoas abandonavam não só suas casas, mas tudo o que tinham, procurando sabe-se lá o que.

Foi bom também porque conheci a Shannya Fayla (que todos diziam shânia fáila), que trabalhava numa lanchonete onde parávamos de vez em quando. Apaixonei-me, pois além de muito bonita, era educada, sensível, carinhosa e muito inteligente. Acho que ela se apaixonou por mim também. Passamos a nos comunicar pelo esmarte, sempre que possível. Me lasquei! Tive que gastar mais dinheirinho com o esmarte, mas valeu a pena. Até pensei em trazê-la para morar comigo.

Quando voltei para casa, as coisas continuavam do mesmo jeito. Nem sinal de meu sobrinho, minha irmã chorando e reclamando, meu cunhado calado ou brigando, minha sobrinha trancada no quarto. De meu irmão, também não havia notícia. Eu tentara de várias maneiras avisá-lo da morte de nosso pai, mas não consegui.

Meu dinheirinho ajudou bem, pois quase não havia o que comer na casa. Meu cunhado continuava desempregado e, parecia, que ultimamente não conseguia arranjar nenhum trocado.

No tempo em que passei viajando, choveu até pouco, embora os dias nublados e o frio que não cedessem. Minha horta estava jogada, crescera muito mato. Gastei uns quatro dias para limpar, mas perdi um pouco das verduras que tinha plantado, sem contar o que minha irmã havia colhido. Meu cunhado não servia nem para cuidar da horta; se não fosse tão preguiçoso poderíamos ter produzido um pouco mais e até vender alguma coisa. Agora o que tinha só daria para nossa alimentação. Replantei um pouco esperando que o tempo continuasse bom.

Pensei em criar galinhas no quarto de meu pai, mas minha irmã não queria, então deixei para fazer isso mais tarde, já que teria que brigar e impor.

Por fim, fui à casa de seu Zezé. Estava com saudades dele. Como sempre fui bem recebido, mas achei que ele tinha envelhecido muito nesses dias. Estava meio encarquilhado, mais lerdo nos seus afazeres, sei lá, mais triste. Mas ele queria saber de mim.

- Ah, seu Zezé, viajei muito, conheci muitos lugares, muitas pessoas, até o mar!... Muito bonito. Conheci também uma moça, a mais bonita que já vi; estamos namorando e é sério! Tenho certeza de que ela também gosta muito de mim. Agora preciso arranjar um jeito de ganhar uns bons trocados, quero morar com ela.

- E o negócio dos porcos, não deu certo?

- Ah, não deu, não! Seu Nonô está com problemas, não está podendo pagar ajudante. Mas pode deixar, não se preocupe, alguma coisa eu arranjo, nem que seja em São José, ou nalguma outra cidade, mesmo que seja longe. Eu quero é viver com a Shannya. O nome é feio, né? Quer dizer, esquisito...

- Não, meu filho, agora é moda, é assim mesmo. Não é feio coisa nenhuma, é até simpático.

- É seu Zezé, só o senhor mesmo... Meu cunhado achou muito estranho. Ele também acha que é bobagem eu pensar em casar ou morar junto. Diz que a vida está muito complicada.

- Ele não deixa de ter razão, mas todos nós precisamos de uma companheira, de um companheiro. É muito ruim viver sozinho, é triste. A solidão não ajuda nada, só aumenta nosso sofrimento.

- O senhor sabia que o governo americano enviou milho para nós? E dizem que é bastante, que vai melhorar nossa alimentação, vai aumentar a produção de carne. E tudo de graça, quer dizer, em troca de nosso petróleo, mas mesmo assim é bom, não é?

- Ruim não é, com certeza. Mais esmolas para um país que deveria ser o celeiro do mundo... Se os brasileiros não fossem tão fracos, tão sem iniciativa, tão covardes, esse país seria uma maravilha. Mas o povo é mole, covarde, ignorante; e os dirigentes safados, oportunistas, vendilhões da pátria.

- O governo diz que nossa produção é baixa por causa das condições climáticas, desse inverno sem fim. O que o senhor acha?

- Olha, eu penso que isso é bobagem, desculpas bobas, propaganda enganosa. Pois esse inverno não começou quando acabaram com a democracia? E acabaram com a democracia não foi porque quiseram? Não foram esses safados que hoje dirigem o país que deram o golpe, que criaram as condições em que vivemos hoje? Então os culpados são eles, oras! Destruíram a indústria que existia aqui; no início acabaram com as empresas de capital nacional, perseguindo-as até a falência, forçando sua venda para estrangeiros. Mas os estrangeiros acabaram por sair do país, pois tinham interesses em outros países, onde com certeza ganhariam mais. Determinaram que nós deveríamos produzir apenas produtos agrícolas e carne, mas também sob o controle do capital estrangeiro e com o lucro encaminhado para fora. Proibiram a produção e o refino de petróleo, mineração só o que interessava a eles, com o gerenciamento externo e os lucros enviados para as matrizes e assim foi. Dia a dia foram vendendo, ou melhor, entregando o país para os interesses estrangeiros. Assim fomos ficando mais pobres a cada dia, mais dependentes, mais fracos, sem defesas e mais impotentes. E aí começou o inverno, devagar, insidioso, mas progressivo e sem fim. Mudanças climáticas, mudanças políticas, diminuição da população, repressão, perseguição, retirada de direitos no geral, destruição de tudo o que algum dia, de alguma forma nós construímos... Não que tenhamos sido espertos em algum momento de nossa história; sempre fomos covardes, preguiçosos, ausentes do desenvolvimento tecnológico, de pesquisas, sem voz ativa, sem qualquer protagonismo. Mal dessa América ibérica, mal que destruiu uma boa parte desse planeta. E quem polui? Quem produz a fumaça que nos impede de receber os raios do sol? Quem promoveu a mudança do clima? São sempre os mesmos...

- Professor, por que não tem mais TV?

- Bem, na verdade tem, mas é paga e é caro; nem todo mundo pode ver, mas você sabe disso, ou não?

- Sei, mas pergunto por que não há televisão que informe, que ensine ao povo essas coisas? E por que antigamente havia televisão gratuita, sem precisar pagar, e hoje não tem mais?

- Aí tem duas explicações. Ficaram, os donos das redes de televisão, tão gananciosos que além do imenso lucro provido pelos anunciantes quiseram ganhos ainda maiores cobrando do espectador. Segundo é que o ‘novo governo democrático do povo’ passou a controlar a programação, a dizer o que poderia ou não ser veiculado, ditando as notícias e cerceando comentários e análises. Aí, entraram em choque com os donos das emissoras, porque a programação permitida ou obrigatória provocou a queda na audiência e, por consequência, diminuiu os ganhos. Por fim, cassaram as autorizações para televisão privada e impuseram a TV paga, com ganhos enormes ao governo e programação segundo seus interesses. Foi assim. No rádio aconteceu a mesma coisa; a grande maioria das emissoras faliu, restaram apenas as que são dominadas pelo governo. Quanto a jornais, faliram por conta própria, já que os brasileiros não leem mesmo, não se interessam em adquirir conhecimento ou mesmo informação que tenha algum valor e, por fim, não tinham mais dinheiro para comprar jornais.

- É, nem livros a gente encontra mais. Lembro que, quando entrei na escola, ainda existiam livros, bibliotecas. Hoje não há mais. Eu queria ter conhecido uma livraria...

- Eu era rato de biblioteca. Vivia fuçando livros, passava horas folheando, buscando encontrar coisas novas. Mas o prazer maior era ir a uma livraria; meu deus, nada era tão bom! Aqui, em nossa região, nunca houve uma boa livraria, mas em São Paulo, Curitiba, Campinas, havia livrarias que pareciam o paraíso. Muitas vezes viajei para uma cidade grande só para ir a uma ou duas livrarias. Minha tristeza era não ter dinheiro para comprar tudo o que eu queria. Voltava alegre com as sacolas de livros e ao mesmo tempo triste por não poder trazer tudo o que queria...

- Por isso as pessoas não podem mesmo saber o que acontece, não é? Não têm informações corretas, se deixam levar pela propaganda do governo, pelos boatos, mas não conseguem diferenciar o que é verdade e o que é enganação.

- Isso mesmo, você está certo. Você não imagina minha tristeza, quando saí da cadeia na primeira vez em que fui preso e encontrei a casa toda revirada, meus livros quase todos confiscados, minha mulher chorando impotente. Hoje não tenho mais livros, só uma meia dúzia que escaparam ao roubo. Pena... Quer uma cachacinha? Eu vou tomar um gole, homenagem ao seu retorno; viva!

- Oba, vinha pensando numa pinga da boa.

- Da boa não tenho. Sei não se vou conseguir mais, mas tenho uma que quebra o galho.

Então brindamos e tomamos aquela cachaça que nos aliviava a mente. E a mente andava cansada; muita procura para não se encontrar nada. Procura por um meio de sobreviver; por uma maneira de ajudar os outros, pelo menos os que amamos; procura por algum entendimento sobre nossa vida, sobre o que nos acontece; procura por alguém para dividir o dia a dia, as tristezas e desilusões. Nem jeito de ganhar dinheiro eu conseguia.

- Fui roubado – contou seu Zezé.

- É mesmo? O que aconteceu?

- Bom, fui roubado duas vezes. Primeiro fizeram uma limpa na horta; não sobrou nem uma fruta. Depois, quando fui comprar alguma coisa no mercado me roubaram o dinheiro; voltei de mãos vazias.

-E agora, como o senhor vai fazer?

- Dei um jeito. Comprei depois umas coisinhas, até um remédio que estava precisando. É muito interessante como a gente aprende a viver sob quaisquer circunstâncias; mesmo nos dias atuais, onde tudo é muito difícil, onde só há violência, a gente dá um jeito de ir vivendo. Ou sobrevivendo!

- Eu gostaria de ter conhecido os tempos antigos. Ainda lembro um pouco de quando era criança e de como as coisas eram diferentes; parece que foi um sonho, mesmo porque minhas lembranças daquele tempo são meio apagadas, meio incompletas. É como se tivesse sido um sonho mesmo...

- E eu ainda fico colocando coisas em sua cabeça, lembrando de um tempo que não deve retornar, de uma vida que se foi. Você deve me perdoar, tenho muitas lembranças e pouca gente para conversar. Hoje em dia, não se encontram pessoas dispostas a bater papo, a trocar idéias, principalmente quando é assunto sério. Parece que todo mundo só fala do tempo, da chuva, do frio, da falta de sol, como se isso pudesse ser mudado. Só falam de dramas, de carestia, da falta de tudo, da falta de perspectivas, da falta de alguma esperança. É só chororô pra cá e chororô pra lá. Mas sei que eles têm razão; pensar pra quê? Querer ter algum conhecimento, pra quê? Conversar a sério, discutir sobre nossas vidas, sobre a situação política, pra quê? Tentar encontrar soluções que só vão ficar em nossas cabeças, pra quê?

- O senhor está meio desanimado hoje, seu Zezé.

- Não, estou apenas divagando...

Deixei meu velho professor com um ar sorumbático, pensativo, talvez tristonho, mas tinha que ir embora. Começara a chover, aquela chuvinha miúda, já nossa velha conhecida, e estava esfriando bastante. Nosso eterno companheiro inverno, que teimava em nos castigar. Talvez merecêssemos mesmo; talvez estivéssemos pagando por nossos pecados, ou pelos pecados de nossos antepassados. Enfim, era o inverno! E nossas vidas eram realmente o inverno.