Nono Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

Agora com a chuva que não parava estava mais difícil conseguir algum trabalho. Quando saí da casa de seu Zezé, naquela tarde em que começara a chover e esfriara muito, cheguei em casa molhado e arrepiado de frio. Claro que fiquei doente, fiquei mesmo muito ruim; uma semana de cama, com febre e tossindo muito. Meu cunhado comprou-me alguma medicação, já que no posto de saúde não tinha médico havia algum tempo nem remédios. Mesmo resmungando, gastou um pouco do dinheirinho que havia ganhado, sabe deus como. Até seu Zezé veio me visitar. Por fim consegui levantar e ir à luta.

Durante esse tempo, recebi algumas mensagens da Shannya, mas não consegui responder: não tinha crédito. Até pensei em mandar uma carta, coisa antiga, mas como não existia mais correio e o Fedex era muito caro, ficou só na vontade.

Vendi os móveis, um relógio e as roupas velhas que tinham sobrado do meu pai. Rendeu bem pouco, mas dava para viver mais algum tempo. Comecei a criar galinha, assim como seu Zezé, mas não era tão fácil alimentá-las, as bichinhas comem muito e estava difícil encontrar até mato para servi-las. Minha irmã nem brigou, andava muito deprimida; e eu tinha medo que ela ficasse como meu pai. Do meu irmão e do meu sobrinho desaparecido, nem notícia.

Seu Zezé vendia ovos, mas minhas galinhas eram poucas e botavam poucos ovos; comíamos tudo que elas produziam. Minha horta já não existia mais, já que a chuva não parava. Estávamos com saudade do sol, mesmo que fosse um solzinho bem fraquinho; os dias estavam muito escuros e as noites ainda mais, mesmo porque faltava energia constantemente. Passávamos mais tempo sem luz do que com energia. E começou a faltar gás também; só no mercado negro a um preço absurdo. E o pior é que não se encontrava lenha seca; tudo encharcado. Tava duro até para cozinhar.

Certo dia, fui a São José ver se achava algum trabalho e acabei ficando por lá duas semanas, pintando a sede do clube de jovens do Mai, que fez isso logicamente só para me ajudar. Ganhei uns caraminguás, mas voltei feliz. Consegui mandar uma mensagem para a Shannya, que me respondeu e pediu que desse um jeito de nos encontrarmos, pois ela estava com saudade e disse gostar muito de mim.

Quando voltei para casa, alegre, feliz, encontrei minha irmã pior. Estava mesmo parecida com meu velho pai, cada vez mais melancólica. E o marido parecia não ligar muito, assim como a filha, que praticamente não saia do quarto. Pior, eles tinham comido minhas galinhas; só restaram três pintinhos, quase mortos de fome. Paciência!

Ainda em São José, fiquei sabendo que o prefeito morrera. Fui ao mercado em busca de novidades, mas havia pouco o que comentar. Diziam que, ao que parece, não haveria eleições; o governador nomearia o novo prefeito. Aliás, já havia algum tempo que não se promoviam eleições; nem vereadores existiam mais. Então ninguém ligava muito.

Seu Zezé tinha novidades, mas não eram boas: seu irmão, o Nico, estava doente e parecia que bem grave. Meu professor estava se preparando para ir a Campinas e convidou-me para ir junto. Aceitei na hora, sem pensar muito, mas depois me lembrei que tinha prometido ir ver a Shannya. Agora teria que mandar uma mensagem, adiando nosso encontro. Ela, com certeza, ficaria muito brava e com razão.. Ê vida dura!

- O que ele tem seu Zezé?

- Bem, não disse direito, mas penso que deva ser um câncer, pelo que ele deixou escapar. Parece que está encontrando dificuldades para o tratamento.

- É! Não deve mesmo ser fácil. Lembra quando fiquei doente? Não consegui ver um médico nem consegui medicamentos no posto. Minha irmã está doente, depressão ou coisa parecida e também ainda não conseguiu médico. Lá deve ser como aqui.

- Esse novo governo democrático conseguiu acabar também com o atendimento de saúde, assim como com a educação. Você sabe que as escolas hoje funcionam muito precariamente, não é? E saúde parece que não tem importância, afinal todos vão morrer um dia, então pra que gastar dinheiro com carne podre, com uma população que quase não produz, que não dá lucro e que ainda assim teima em viver e, pior, em ter filhos... Para eles ‘quem não trabalha não merece comer’. Mas não nos deixam trabalhar, não nos deixam produzir, acho que justamente para que a população vá diminuindo e dando menos amolação aos nossos donos.

- Mas como é que eles ganham dinheiro se não tem ninguém trabalhando para eles, ou tem muito pouco? Em todo lugar é tudo automático, é tudo feito por máquina, quase não tem funcionário e quando tem a gente quase não vê. Pelo que me contam existem pouquíssimas indústrias trabalhando, a agricultura produz pouco por causa do inverno, não tem mais mineração, ou tem muito pouco. Como é que os ricos ganham dinheiro?

- Ah, meu filho! Não sei, mas que ganham, ganham. Eles venderam tudo que podiam do país, empresas, terras, bancos, prestação de serviço, até os serviços que seriam de obrigação do estado, que seriam dever do poder público, enfim venderam tudo. Venderam a segurança pública, que hoje tem empresas mantendo o policiamento, precário você sabe; empresas cuidando da educação, péssima você sabe também. Privatizaram-se a saúde pública, o transporte, as estradas e ferrovias, os portos, aeroportos. Até o judiciário e as prisões são privatizadas. Venderam barato, é claro, mas para os poucos que se locupletaram deve ter rendido muito. E mesmo que a produção do país seja pouca, o lucro vai todo para os donos do poder. Além disso, eles devem aplicar o capital em outros países, o que deve render muito ganho. E controlam a distribuição das drogas, a venda de bebidas, de alimentos, enfim de tudo que ainda somos obrigados a consumir, das importações, da pouca exportação – se é que tem alguma – enfim, está tudo nas mãos dessa oligarquia que se tornou dona do país. Quer dizer, meio dona, porque os verdadeiros donos, nossos patrões não são daqui; são chineses, russos, estadosunidenses, alemães, japoneses... E digo mais, os nativos que fazem parte da nata privilegiada, os vendilhões da pátria, nem moram aqui. Vivem em paraísos. Aqui só ficam os que estão de plantão no governo, os fantoches.

- Acho que venderam até a população; nos venderam sem nos avisar.

- Isso mesmo, você vê muito bem como são as coisas. Por essas coisas que você observa é que gosto de conversar com você. Hoje em dia não encontro pessoas com quem possa trocar ideias. Ainda bem que você é meu amigo.

- Olha professor, eu também não tenho muitos amigos. Aliás, são bem poucos; o senhor é meu melhor amigo e é a única pessoa que conheço, além do seu irmão, claro, com quem se pode conversar mais sério. Antes de meu pai adoecer, ele ainda gostava de conversar, mas, depois, o senhor sabe, já não se interessava por nada.

- Seu pai era um bom amigo; conversávamos muito. Ele tinha uma boa visão do mundo. Parece-me que antigamente as pessoas eram mais interessadas, mas também não tinham tanta dificuldade para viver. Antes do golpe, dessas mudanças todas, mesmo com as crises e o desemprego, quase todo mundo conseguia pelo menos alguma renda, tínhamos uma vida pelo menos mais digna. Com o golpe, veio o aumento assustador do desemprego, depois acabaram com as leis que regiam o trabalho e o trabalhador passou a ser um quase escravo, sem direitos, com a renda bem mais baixa que antes, sem qualquer estabilidade, sem garantia alguma quanto ao dia de amanhã. Aliás, usaram essa situação de completa instabilidade do emprego e de desemprego em crescimento para atemorizar as pessoas, para impedir que houvesse qualquer movimento contrário ao poder que estavam tomando em suas mãos. Mesmo quando acabaram com a previdência oficial, quando transferiram toda a previdência para bancos privados, quando acabaram com a democracia, com as eleições, houve muito pouca manifestação. As pessoas tinham medo; estavam vendo seus direitos serem retirados, um após o outro, mas não tinham coragem de se manifestar, de ir para a rua e exigi-los de volta; ninguém queria mostrar a cara. Mesmo aqueles que tinham apoiado o golpe, a deposição da presidenta eleita, começaram a entrar pelo cano, mas agora, quando não havia mais democracia. E, quando não havia mais garantias constitucionais, quando a coisa virou mesmo um estado fascista, tiveram medo de reagir, acovardaram-se, como a maioria.

- Seu Zezé, quando havia leis trabalhistas, havia menos emprego? Os salários eram menores?

- Ao contrário; havia muito mais emprego, os salários eram melhores. Todos tinham direito a férias, descanso em um dia da semana, limite nas horas de trabalho e ainda recebiam um salário extra no final do ano.

- E isso não foi a causa da quebra de muitas empresas, como o governo diz?

- Claro que não! Antes das ‘reformas’ nenhuma empresa quebrou por causa de salários ou direitos trabalhistas, a não ser alguma que por qualquer outro motivo veio a falir, mas nunca em razão dos direitos trabalhistas. As empresas foram quebrando ou fechando a porta após o golpe e as mudanças na política e na lei em geral por causa da perseguição que o novo governo promoveu ao capital nacional, ou devido à concorrência predatória do exterior, ou por ordem dos donos estrangeiros, ou por ganância dos acionistas daqui e de fora. Enfim foram muitos os motivos, mas nada por culpa do trabalhador. Piorou ainda muito mais após a nova constituição feita alguns anos após o golpe. Você deve se lembrar das aulas de história, quando eu falava sobre a constituição de 1988, que foi chamada de Constituição Cidadã. Coitada! Foi uma das constituições mais avançadas do mundo, mas dava muito mais direitos ao povo do que poderia agradar às elites, aos donos do dinheiro e do poder, por isso revogaram essa constituição e impuseram uma feita por eles, sem qualquer participação popular, sem qualquer discussão, sem qualquer consulta. Fizeram ao seu bel prazer, garantindo apenas os interesses da classe dominante, dos capitalistas e rentistas, dos empregadores. Claro que todo mundo aceitou, menos uns mais bobos como meu irmão e eu. E os poucos que se revoltaram com o impeachment fajuto, com a prisão arbitrária, ilegal, do ex-presidente, com a retirada dos direitos do povo, foram calados, amordaçados, em pouco tempo, com prisões, torturas, desaparecimentos e mortes. Foi mesmo muito triste. Acredito até que muitas pessoas morreram mesmo foi de tristeza. Só mesmo quem viveu aqueles tempos pode saber como foi triste...

Ficamos um bom tempo calados, meditando sobre as últimas palavras do mestre. Ele mostrava realmente uma tristeza profunda; ficou olhando para o nada e eu fiquei imaginando quanto sofrimento as pessoas tiveram e têm em suas vidas. O que será que se passava na mente do velho professor? Fiquei também bastante triste, mas, ao mesmo tempo, temeroso em relação ao seu Zezé. Não tive coragem de deixá-lo sozinho e acabei dormindo em sua casa naquela noite.

No dia seguinte, ele estava melhor, então fui para casa preparar a mala para a viagem. A chuva não cessava; chuvinha miúda, com jeito de durar muito tempo.

Consegui me comunicar com a Shannya, que, como esperado ficou muito chateada com a notícia de que eu viajaria com meu professor e, portanto, teria que adiar nosso encontro. Deu até a entender que talvez não quisesse mais se encontrar comigo. Fiquei triste e preocupado, mas pensei que depois poderia consertar isso; não podia falhar com seu Zezé neste momento, afinal, ele nunca tinha me pedido nada. Pensei um bom tempo e conclui que o certo era mesmo viajar com o professor.

Preocupava-me também a situação de minha irmã, tinha receio de deixá-la nessas condições, mas ela tinha seu marido e sua filha e com certeza eles cuidariam dela.