Primeiro Capítulo


Topo - Dias de Sol

 

-Me dá muita saudade daqueles dias quentinhos, céu azul, muito sol! Quando conto quase que ninguém acredita, mas já houve dias assim; já vivi tempos bons, dias de calor, dias e dias sem chuva, noites claras, lua cheia! Saudade...

- Pois, seu Zezé, gosto muito de ouvir o senhor contar essas histórias, fico imaginando... Devia de ser mesmo muito bom! Meu pai contava pouco; acho que ele não gostava de lembrar: chorava... Queria ter conhecido minha mãe. O senhor a conheceu, né não? Dizem que ela era bonita e muito faladeira. É o que dizem.

- Conheci, conheci muito; fomos até vizinhos, num tempo. Ela era meio parente minha, prima segunda de minha mulher. Gente muito boa, bom coração. Ajudava todo mundo. Seu pai também sempre foi bom, mas muito ensimesmado, muito revoltado com as coisas, com os políticos. Sempre falou mal dos ricos, dos gananciosos. Uns diziam que ele era comunista e depois mudou. Quando veio o novo governo e depois esse inverno sem fim, parece que ele se entristeceu, murchou, perdeu a vontade. Eu nem vou mais na sua casa; as últimas vezes em que estive lá, parecia-me que ele ficava muito triste em conversar comigo, aí parei de ir. Mas eu gostava de bater um papo com ele. Porque você não o traz aqui? Se me avisar mato uma galinha, que tal? Da cachaça, ele gostava; cerveja, não sei se arrumo, mas vou tentar. Que tal?

Seu Zezé era meu melhor amigo. Gostava muito de conversar com ele e vira e mexe ia à sua casa. E ele também parecia gostar de minhas visitas e de bater papo comigo. Como morava sozinho, dava sinais de sentir certa solidão. Quando havia energia, sua casa era das poucas que tinha luz funcionando. Então, ele tocava seus velhos discos em seus aparelhos antigos – não sei como os mantinha funcionando. Tinha um rádio, mas raramente conseguia sintonizar alguma emissora, mesmo porque naqueles nossos tempos existiam pouquíssimas emissoras e todas longe daqui, nas cidades grandes. Eram emissoras do governo, mas, às vezes, tocavam alguma música boa. No resto, apenas notícias nas quais ninguém acreditava e discursos que ninguém ouvia. Eram tempos difíceis! Os dias, cinza, quando raramente se via o azul do céu ou o dourado do sol. Poucas vezes, tínhamos um dia um pouco mais quente, pois quase sempre estava frio. Em geral, ficava muito frio e chovia quase todos os dias. Íamos vivendo.

Outros jovens também procuravam o professor Zezé, buscavam seus ensinamentos, mas quase nunca nos encontrávamos, principalmente porque eles apareciam pouco em sua casa, devido à fama do professor e seu passado de preso político. Todo mundo tinha muito medo, de tudo.

Mas, não sei por que, bateu-me essa ideia de escrever e de deixar gravado de alguma forma as coisas que seu Zezé me contava. Talvez porque não tenha mesmo muito o que fazer ou, quem sabe, para que no futuro possam saber como vivíamos, como eram nossos dias, nossos sofrimentos, nossas carências ou mesmo para que alguém possa saber que antes dessa época as coisas eram melhores, as pessoas eram e foram mais felizes ou ainda para não deixar morrer as memórias de seu Zezé, porque os que tinham memória eram poucos. Seu Zezé fora meu professor; já tinha sido professor de meu pai e de minha mãe; parecia que ele não tinha idade: conhecia coisas de muito antigamente, contava-as sem nenhum medo. Ou, se tinha, escondia muito bem, ninguém notava.

Nos últimos tempos, eram poucos os que procuram o seu Zezé, os que estavam dispostos a conversar com ele. Quase todo mundo tinha medo, embora todos o respeitassem, o cumprimentassem, mas sempre só de passagem. Quando havia energia, a luz em frente à sua casa era uma das poucas que permanecia acesa nas ruas. Acho que o prefeito fazia questão de que ela estivesse sempre funcionando, pois ficava mais fácil vigiar. E todos na cidade sabiam que ele era vigiado, havia muitos anos, desde que saiu da cadeia e, naquela época, qualquer coisinha levava uma pessoa para a cadeia, ou pior.

Eu não me lembro direito quando as coisas começaram a mudar. No tempo do golpe, ainda era muito pequeno. Lembrava apenas de meu pai revoltado e xingando e maldizendo os que ele chamava de golpistas. A palavra golpe me acompanhou toda a vida, até hoje. O que conto são algumas pequenas memórias minhas, de meu pai, de um ou outro professor, mas sobretudo de seu Zezé.

Ele me contara sobre o começo desse inverno sem fim:

- Começou sem que a gente percebesse, foi aos poucos. Após o golpe, com o novo governo, as coisas começaram a se modificar, ficando cada dia mais difíceis, mais tenebrosas. Os empregos foram sumindo aos poucos, os salários foram minguando e já não tinha dia certo para o pagamento. Às vezes pagavam apenas metade ou mesmo um terço do salário. A bandidagem começou a tomar conta de tudo e a polícia só perseguia quem lutava ou se manifestava contra o novo governo. As eleições foram sendo adiadas e muita coisa ruim foi acontecendo. Enquanto isso, cada vez chovia mais, mais continuado, e o sol foi sumindo, desaparecendo gradualmente de nossas terras... Naqueles tempos antes do golpe, havia jornais, revistas, todo mundo podia ver televisão... Tinha emprego, não para todos, mas sempre se trabalhava numa coisa ou noutra. O alimento era farto, lembro-me de muita comida boa, gostosa, que faz tempo não vejo mais... Nem sei dizer por que as coisas mudaram tanto! Às vezes penso que foi a ganância, a vontade de alguns de terem cada vez mais, de serem cada vez mais ricos, de serem os donos de tudo... Nós fomos às ruas, protestamos, procuramos lutar contra as mudanças que o novo governo promovia, mas conseguimos muito pouco; a força e a truculência dos donos do poder e do dinheiro nos venceram, até com certa facilidade.

Seu Zezé mostrava os olhos cheios de água quando contava essas coisas.

- Pior é que muitos apoiaram esse governo, essas mudanças – continuava meu velho professor. Sei lá o que pensavam, ou se pensavam... Provavelmente foram levados pela conversa, pelas propagandas. Eles tinham muita lábia, tinham jeito de convencer os mais ingênuos. Naquele tempo havia televisão, que era aberta, de graça, e que trabalhava para convencer as pessoas sobre as “verdades” que interessavam aos golpistas, e conseguiram. Convenciam os mais ingênuos, os menos informados ou mal informados. As pessoas daquele tempo não tinham educação adequada, acesso ao conhecimento correto na escola, ou mesmo fora dela. Bem como hoje. Espertalhões, vendilhões da pátria, corruptos. Uma verdadeira quadrilha tomou conta do país e muita gente não via ou não acreditava no que estava acontecendo. Tolos? Ou será que grande parte dos cidadãos queria tirar proveito? Ser iguais aos golpistas, ricos como eles? Vocês não devem se lembrar de quando eu falava de nazismo, de fascismo; ensinei nas aulas, mas acho que ninguém lembra mais. Aqueles que tomaram o poder, o novo governo, eram mesmo nazistas! São! Nosso país nunca conheceu um período longo de democracia; acho que nunca merecemos. Quem sabe somos todos muito covardes? Nunca lutamos, nunca morremos, para defender nossos direitos. Mas penso que em todo o mundo é assim: manda quem pode; nunca se ganha quando se defende a justiça...